Porque me alinhei aos pessimistas

Fiz a seguinte pergunta, durante um evento que eu conduzia: vocês acham que o mundo vai estar melhor daqui a cinco ou dez anos? Dos trinta participantes, 29 responderam veementemente que sim, apenas um afirmou que não.

Pedi ao distinto que apresentasse os seus argumentos e eles remetiam à devastação do meio ambiente e das consequentes ameaças ao planeta. Houve um contraponto na ala dos otimistas, indicando o interesse da indústria automobilística na fabricação de veículos que não utilizem combustíveis fosseis, para reduzir bastante o índice de poluição.

Eu fiz coro ao lado pessimista, para espanto de todos, mas com outra argumentação. Lembrei que, em toda a história, os humanos nunca se mataram tanto. E não me referia ao trágico saldo das guerras e dos crimes, tão comentados nos noticiários. Falava, sim, dos que desistem da vida por meio do suicídio, um trágico fenômeno, cujo número supera o conjunto dos dois que monopolizam a atenção da mídia.  

Que eu saiba, ninguém se suicida por causa da poluição ou do buraco na camada de ozônio. A questão é outra, e daí o meu pessimismo. Ao olhar para os próximos cinco ou dez anos, vejo, cada vez mais latente, o vazio existencial e a ausência de propósito, principalmente entre os jovens. Os pais não sabem lidar com isso, até porque muitos deles também não descobriram um propósito que trouxesse significado à sua existência. O mesmo problema se observa nas escolas, mais ocupadas com sua própria sobrevivência, consubstanciada em matrículas e anuidades.

Pessimismo e otimismo fazem parte do sistema de crenças. Podemos defender um ou o outro a depender do ângulo de visão, em uma discussão infinita. O ponto de vista que escolhi é fato, infelizmente. E o que joga contra a vida não pode promover a vida. A vida é um valor, está acima do sistema de crenças que alimenta o otimista ou o pessimista.

O otimismo pode ser considerado até melhor do que o pessimismo. Afinal, nos leva a acreditar que as miragens são enganosas, os contratempos são temporários e não há mal que sempre dure. Tudo isso é verdade, mas o otimismo para por aí. A visão do otimista é limitada! É preciso ir além.

No mesmo evento em que fiz a pergunta, eu admiti que, ao invés da crença no otimismo, prefiro viver o valor esperança. O otimismo é analítico, a esperança é sistêmica. Depende de um olhar consciente, mais amplo.

Podemos dizer que a principal diferença entre o otimismo e a esperança está na ousadia, um dom exclusivamente humano. A medida da ousadia, por sua vez, tem relação direta com a medida de nossa ambição. Qual é o tamanho de sua ambição? Pequena a ponto de reproduzir o que já foi experimentado, ou elevada, pronta a assumir o risco de conduzir você a um futuro incerto, com o qual tem pouca familiaridade?  Entre um ponto e outro, onde você se situa? Quanto se dispõe a ousar? É capaz de se expor e à sua obra ao desconhecido?

Otimismo é olhar para o que já existe e acreditar que vai mudar. Sem obras, de nada vale. Esperança é recriar a realidade. Encare o desafio. É, mesmo, instigante!

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