O perigo da segurança acima de tudo

Segurança parece ser uma palavra muito poderosa. Em tempos de pleitos políticos, ela ocupa um espaço amplo, a ponto de concentrar tantas atenções que outras, mais importantes e vitais para a vida da população, fiquem de fora das conversas.

Quando se vende o peixe da segurança, passa-se a temer e a evitar a insegurança a ponto de instalar no imaginário da população a crença de que seja infinita.  

O mesmo imaginário invade também ambientes organizacionais e neles se cristaliza. “As pessoas querem segurança acima de tudo” é uma crença muito arraigada na cabeça dos líderes.

A “segurança acima de tudo” vem com efeitos colaterais e o principal deles é gerar uma sociedade ou grupo de trabalho que busca, sobretudo, preservar-se e precaver-se.

Na sociedade, se traduz por um tipo de mundo “cada um por si”, onde o egoísmo é acentuado em detrimento do altruísmo. Assim, quem pode e tem condições financeiras que trate de comprar a sua arma. Acentua-se o nós versus eles, tornando a sociedade cada vez mais sectária e desigual.

Na empresa, é possível ver mais de perto o prejuízo, com todas as suas danosas nuances. Os indivíduos são incapazes de compor uma equipe – afinal cada um está tentando se preservar. O conjunto de colaboradores é, na verdade, um amontoado de pessoas que pensam apenas em si mesmas, indiferentes aos outros. Não é difícil concluir que o quadro é fatal para o negócio, quando lembramos que os outros são os clientes. Está aí a perfeita fórmula do desastre empresarial: não se forma uma equipe nem se conquista o cliente

Na certeza de que existe o anseio por “segurança acima de tudo”, líderes empresariais tentam tapar o buraco da insegurança com garantias e benefícios. Dessa maneira, só fazem infantilizar as pessoas, as quais, por sua vez, evitam o risco, a mudança e a evolução, pois esse conjunto de “perigos” só faz aumentar ainda mais o sentimento – já arraigado – de insegurança.

Enquanto líderes – na empresa ou no governo – insistem em bater nessa tecla, outras necessidades mais nobres e vitais são deixadas de lado. Entre elas se alinham: pertencer a uma sociedade mais justa e igualitária, reger-se por valores virtuosos tais como a bondade e a solidariedade – ambos desarmam – e ter um propósito que promova a vida, ao invés de enterrá-la, em nome da preservação, enquanto é carcomida pelo verme do medo.

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