O medo e suas emboscadas

As coisas vão e vêm e nem sempre as mantemos na memória. Se não lembranças, ao menos deveriam deixar aprendizados. O tempo, implacável, leva embora o que não deveríamos descartar. E lá vamos nós cometer os mesmos erros, sentir os mesmos, inúteis, medos. 

Ser correto é uma virtude, a de se corrigir, reparar, retornar ao certo, fazer a conversão para seguir viagem mais saudável. 

Não sei se você se recorda, mas começamos 2018 com uma ameaça de febre amarela, uma dessas epidemias que assolam e apavoram os cérebros répteis, embora humanos. A doença infecciosa provocou a morte de 147 pessoas no ano anterior e ceifaria 81 pessoas, no seguinte. Todos os óbitos foram na área rural, nenhum nas cidades. 

Milhões de brasileiros correram aos postos de vacinação, munidos de cadeiras, barracas e colchões espalhados pelas calçadas. As filas se formavam ao longo das madrugadas. A disputa por senhas gerou brigas, bate-bocas, agressões. 

Mórbido fazia o seu trabalho com muita competência (para quem não sabe, Mórbido é personagem do livro O Velho e o Menino e, dada a sua insistência, trouxe-o de volta no Chamamentos, meu mais recente livro). Aliás, já no final de 2017, fecharam o Horto Florestal de São Paulo, o zoológico e outros parques urbanos. Os macacos eram os portadores do mal, segundo o entendimento público. 

Quando essa informação foi divulgada, aconteceu uma violenta caçada aos animais, sem poupar bugios, macacos-prego, saguis e até o quase extinto mico-leão-dourado. A matança brutal se deu das mais variadas formas, incluindo facas, pedras, paus, ferros, fogo e até tiros de espingardas. Mais de 600 bichos foram abatidos, fossem ou não contagiados por vírus. 

O texto sem o contexto é sempre muito perigoso. Daí a importância do distanciamento, para que se examine a realidade com mais isenção e razão e menos paixão e emoção. Os macacos são hospedeiros do vírus, mas não os transferem. Servem, portanto, apenas como alertas. Quando adoecem ou morrem de febre amarela, anunciam o perigo. Eles não são os vilões, mas sim vítimas.  “Se a mensagem é ruim, mate o mensageiro”, eis o entendimento imponderável da ignorância solta por aí, displicente ao conhecimento imprescindível para elucidar a verdade e, claro, poupar os macacos.

A função do Mórbido é espalhar ainda mais medo. Para infernizar ainda a vida da população, armou outra emboscada. Um canal do YouTube divulgou outro factoide: a vacina é tão letal quanto a febre amarela e faz parte de uma conspiração que tem como objetivo exterminar brasileiros. O vídeo chegou a ter 75 mil exibições. 

Se houve algum aprendizado, saberemos no próximo surto. Enquanto isso, que cada um de nós desenvolva o discernimento, um dos cinco dons que apresento em Chamamentos, para que possamos sempre retornar à ordem natural.

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