O boi voador

Os discípulos de Tomás de Aquino, tentando importuná-lo, quando estava compenetrado em seus escritos, chamaram-no:

– Mestre, venha depressa! Veja o que está acontecendo! Olhe pela janela, veja lá fora… um boi voando!

Tomás de Aquino largou o que fazia e, num salto, foi até a janela. Os jovens aprendizes puseram-se a rir da ingenuidade dele.

– Mestre, com toda a sua sabedoria, como pode acreditar em um boi voando?

No que o santo respondeu:

– Prefiro acreditar que um boi possa voar do que perder a confiança em vocês.

Se fizéssemos o mesmo com as crianças, dizendo “corram, venham ver pela janela, um boi voando!”, todas, como o santo, correriam para vê-lo. Nenhuma hesitaria. Se fossem adultos, é possível que ninguém se mexesse e ainda risse, com ironia, da insanidade de quem os chamasse.

Se quiséssemos continuar a brincadeira, poderíamos mostrar o boi voador insinuado por nuvens no céu e a crianças o enxergariam. E se até construíssemos, juntos, uma história tendo, além do protagonista alado, outros personagens, também delineados pelas nuvens, a imaginação correria solta, divertindo todos.

Tomás de Aquino tinha espírito de criança, aquele que a gente vai perdendo ao longo do tempo, enquanto nos transformamos em adultos e que tanto nos faz falta em momentos cruciais da vida.

Perder a criança interior é abrir mão da confiança e da esperança, palavras tão correlatas e que rimam entre si, tamanha sua afinidade. Muitos tentam reaver a confiança e a esperança perdidas, sem contudo descartar a sisudez e as murmurações do adulto, criatura infeliz mergulhada em suas mazelas.

Alguns, dissimulados, escondem-se por trás de um otimismo piegas, mas, no fundo, a fachada não impede que a realidade se imponha, pois, de fato, tanto a confiança como a esperança bateram asas e voaram. Antes fosse o boi voador! Quem dera dessem crédito a ele. Ou a suas crianças interiores, porque elas persistem vivas, mesmo que as pessoas não deixem que se manifestem. Observe e reconheça a sua, deixando que se expresse. Livremente.

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