O canto da araponga

Você já ouviu o canto da araponga? É alto e estridente. Em algumas regiões do Brasil, essa ave é conhecida também pelo nome de ferreiro, porque o som que emite lembra, com perfeição, o ritmado e monótono trabalho de quem bate o martelo na bigorna, para dar formato a um ferro incandescente.

Curioso, quando ouvido pela primeira vez, na sequência o canto da araponga torna-se perturbador, como uma tortura aos ouvidos. Mas, e daí? O que isso tem a ver com a nossa praia, o palpitante mundo dos negócios?

Muito! Pois existem empresas que são como o canto da araponga: emitem sinais estridentes, repetitivos e irritantes. Vivem o dia-a-dia no toma lá, dá cá, mergulhadas nos afazeres de comprar/produzir/entregar/receber/pagar.

Nas situações mais críticas, os pagamentos se antecedem aos recebimentos, e a agenda do líder é um eterno “martelar a bigorna”, com atividades que oscilam entre pilotar o fluxo de caixa, consultar os pedidos em carteira, administrar as contas bancárias deficitárias e driblar os credores. Todo o seu tempo concentrado onde o resultado não está, na ilusão de que lá estivesse.

Nas situações menos críticas, onde não existe o problema financeiro, o “martelar a bigorna” se refere ao exaustivo mundo de verbos e objetos sem sujeitos. Todos se repetem a cada dia, a empresa se repete a cada mês e o negócio se repete a cada ano. Sempre no hercúleo esforço de trocar mercadorias ou serviços por dinheiro, nada mais. Ano após ano, de maneira estridente, repetitiva, irritante, como o canto da araponga. Existe, sim, um sucesso financeiro, mas destituído de significado.

Em sã consciência, ninguém gostaria de levar uma vida ouvindo o canto da araponga. Seria enlouquecedor! É fato que muitos se acostumam com essa cantilena ruidosa, mas, para suportá-la, desenvolvem mecanismos de defesa na forma de algum tipo de entorpecimento. Pois uma vida sem significado é mesmo uma loucura. O significado é combustível para a alma e o melhor lugar para se abastecer dele é o trabalho.

Em busca de um novo canto

Imagine-se em confinamento, num quarto escuro. Naquele breu, tudo o que você consegue ver são vultos, imagens deformadas. Todo entendimento sobre a realidade fica distorcido. E, como acontece no deserto, só é possível enxergar miragens. Essas miragens são as suas “verdades”, aquele conjunto de crenças que governam suas decisões e ações. As mesmas que mantêm você naquele quarto escuro e que se reforçam mais ainda na medida em que se repetem. Afinal, miragens se alimentam de miragens, um moto contínuo que lembra muito o canto da araponga.

Quem permanece no breu do quarto, só enxerga o que lhe convém, mais como resultado de suas “verdades” do que da realidade em si. Exemplos?

“O mercado é um ambiente ameaçador. É preciso ter precaução para enfrentar as ameaças. Então, o melhor é jogar na retranca.” Essa é uma miragem, não exatamente a imagem. Pois o mercado é também um ambiente de recreação e arte, onde tudo está por ser feito, ainda. É, portanto, um espaço de oportunidade, propício à criatividade e à inovação.

“Antes de qualquer coisa, é preciso garantir a sobrevivência.” Essa é outra miragem, pois quem se atém à sobrevivência, dela não sai, pois não consegue pensar em outra coisa.

“O mercado é um ambiente competitivo. Ou você almoça os outros, primeiro, ou eles jantam você, depois.” Quem aposta nessa miragem, esquece que o Sol nasceu para todos. E é fácil esquecer confinado em um quarto escuro. Mas quem dele sai, constata a abundância dessa feliz realidade.

“O mundo dos negócios é feito de vencedores e perdedores. E no alto do pódio só cabe um.” Essa é outra miragem também alimentada pela visão de escassez, de um mundo reduzido ao breu do quarto, onde são muitas as probabilidades, mas poucas as possibilidades.

“É preciso manter-se ocupado. Trabalhar é fazer e não há tempo para pensar.” Nem para sentir. Outra miragem proveniente da crença de que tempo é dinheiro, pois, no compasso da araponga, quem muito trabalha quase não tem tempo para produzir riquezas de verdade, principalmente aquelas revestidas de sentido.

“O porco só engorda sob os olhos do dono. É preciso manter o controle sobre tudo.” Um belo exemplo de que o carcereiro é, também, prisioneiro. Aferrado aos controles, perde oportunidades.

“As pessoas não são confiáveis até dar provas do contrário.” Essa é uma miragem, alimentada pela desconfiança. Deve ser substituída pela seguinte imagem: “as pessoas são confiáveis até que se prove o contrário”. Uma troca de crença, um novo canto.

“Sucesso é conquistar o máximo de dinheiro, todo o resto é decorrente.” Essa miragem perpetua o canto da araponga. Haverá dinheiro em caixa, mas com total desperdício do deleite que advém de todos os outros cantos, mais melodiosos e sublimes.

“Felicidade é algo que acontece no futuro, depois da sobrevivência.” Essa é a miragem da procrastinação da vida, enquanto se aprende a (des)viver no quarto escuro.

“Mudança toma muito tempo. Não tenho tempo para a mudança.” É a miragem de quem prefere se acostumar ao quarto escuro ao invés de procurar a luz.

Tudo começa com o primeiro fósforo

A gente se acostuma com tudo. Até com o breu do confinamento. E, à medida que se conforma, cresce a vontade de se manter ali. Quando mais alguém se acomoda às trevas, mais se afasta da possibilidade de luz.

Não é a luz que se afasta ou se apaga, é a gente que se distancia dela. Ela passa a ser “menos”, enquanto o breu passa a ser “mais”. A luz nos parece tão distante que se torna quase inexistente. Quanto mais alguém se amolda a isso, menos vontade tem de sair à luz.

Quem permanece no escuro não consegue pensar em mais nada, além de em si mesmo, na própria sobrevivência, no que é provável e não no que é possível.

Mas é preciso dar o primeiro passo. Basta acender apenas um fósforo! É o que nos permite ver algo, quem sabe um armário, uma cadeira, uma mesa, uma estante. Acendemos mais sete fósforos e aí se vê muito mais: livros na estante, toalha sobre a mesa, almofada na cadeira. Acendemos setenta fósforos e o que temos diante de nós é uma linda sala, com quadros nas paredes, cortinas nas janelas, mas ainda restam alguns cantos escuros que guardam surpresas. Agora, que a curiosidade tomou conta, queremos ver tudo. Acendemos mil fósforos e a imagem é de um ambiente aconchegante, feito de beleza e cor, harmonia e luz.

Mudou o ambiente?

Não, é o mesmo! Mas, para quem sai da escuridão rumo à luz, tudo muda. E se reveste de significado. É o lampejo suficiente para acalentar novos desejos e ter vontade de ouvir outros cantos.

Nasce, então, o encanto pelo trabalho e o amor à vida. Com tudo o que ela pode nos oferecer de melhor e mais intenso. Não espere nem mais um segundo para acender o primeiro fósforo!