“Isso não é comigo!”

Não foi por falta de aviso. Ele bem que tentou:

– Socorro! Tem uma ratoeira na casa! Façam alguma coisa!  

Demorou para saber o que havia naquele pacote que o fazendeiro e sua esposa desembrulhavam. Ao espiar pela fresta da parede, o rato constatou, aterrorizado: uma ratoeira! Correu para o terraço, fazendo um tremendo alarde:

– Uma ratoeira! Tem uma ratoeira na casa! Perigo!

A galinha que ciscava calmamente, assim continuou. Não sem antes comentar, entediada:

– Não me leve a mal, senhor, mas me parece que é um problema seu. Que eu saiba, ratoeiras foram feitas para pegar ratos, não galinhas.

Inconformado, o rato se esforçou mais a espalhar o alerta, tentando sensibilizar o porco:

– Tem uma ratoeira na casa! Perigo!

– Uma ratoeira? – perguntou o porco, fazendo-se de desentendido – Ratoeira lembra rato! Parece que alguém corre perigo aqui na fazenda e esse alguém não sou eu.

Desnorteado e buscando ajuda, o rato recorreu à vaca:

– Uma ratoeira? E desde quando vacas têm medo de ratoeiras? Você já viu uma ratoeira ameaçar uma vaca?

Abatido, o rato não via saída exceto esperar sua vez de ser abatido pela fatal armadilha. Pois naquela mesma noite se ouviu um estampido, semelhante ao da ratoeira quando esmaga uma vítima. A mulher do fazendeiro correu para verificar a presa. No escuro, não percebeu que a ratoeira havia prendido a cauda de uma cobra venenosa, que, por instinto de defesa, picou a mulher. O fazendeiro tratou de socorrer a esposa, levando-a ao pronto socorro da cidade.

Uma vez concluído o atendimento, ambos retornaram à casa. Ela, muito abalada, ainda, e com febre indicando infecção.  Nada melhor para sua dieta do que uma canja de galinha! E lá se foi a entediada para a panela. Nos dias que se seguiram, houve uma porção de visitas à enferma. Para alimentar esses parentes, amigos e vizinhos, o fazendeiro abateu o porco. Apesar dos cuidados e atenções, a doente só fez piorar. Acabou morrendo. Veio tanta gente para o funeral que o marido teve de sacrificar a vaca, para dar de comer a   todo aquele povo.

Moral da história:

Todo problema nos diz respeito, seja na empresa em que trabalhamos, no edifício, no bairro, na cidade, ou no país onde vivemos. Sempre há efeitos sistêmicos, mesmo que as causas sejam específicas e localizadas.

Não se aliene. Admitir, sem rodeiros, que “tudo também me diz respeito” é uma forma de viver interativa e conscientemente.

Quando vir uma ratoeira solta por aí, lembre-se de que a fazenda toda está ameaçada. Atente para o alerta e faça alguma coisa!

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