Além do trivial

Desculpe a trivialidade da frase, mas o mundo está em constante mudança. E aqui vai outra igualmente corriqueira:  a única coisa permanente é a mudança. Embora tão banais, são verdadeiras. Como um rio que persiste em seu movimento, também a vida flui incessantemente. Às vezes até gostaríamos de congelar o momento na ilusão de que se eternize, mas isso não é possível. Maré alta, maré baixa se sucedem e não há como evitar. Quem tem a necessidade de controlar o indomável sofre muito com isso tudo.

Resistência à mudança é um tipo de medo – o de perder alguma coisa.  

No livro “O velho e o menino” trato de dois tipos de mentalidades: a de destino e a de desígnio. A primeira, adere à mudança tal como ela se apresenta. E daí, vê o que faz com ela. Talvez a amaldiçoe por não ser aquilo que gostaria. Talvez a enalteça por oferecer alguma surpresa positiva. De toda forma, revela passividade.

A segunda mentalidade, certa de que não é possível controlar nenhuma mudança, sabe que pode, sim, influenciar seu fluxo.  Voltando à metáfora do rio, a mentalidade de desígnio nem tenta interromper o movimento do rio, mas empenha-se em compreender o seu fluxo.

A mentalidade de destino é típica da criatura, aquela incapaz de entender por que o que não deveria acontecer, acontece.   Procura subterfúgios para defender-se das mudanças e se estressa com essa luta inglória.

A mentalidade de desígnio, por sua vez, percebe que a vida é uma trama e intui que a atitude de criador é cerzir essa trama com os fios que lhe são postos.

No fundo, a mentalidade de destino se orienta pelas coisas “de fora”, aquelas que surgem por conta da boa sorte ou do fatídico azar. Quem é conduzido pelas coisas de fora, busca sempre algum sistema ou método, também externo, para resolver os dramas de sua vida causados pelas mudanças. Inconformado, não entende por que as mudanças acontecem para ou contra ele.

A mentalidade de desígnio, por outro lado, se orienta pelas coisas de “de dentro” e leva quem por ela se inspira, a reconhecer em si mesmo, a começar pela própria consciência, os meios e os fins necessários para que os dramas se transformem em tramas virtuosos e prósperos. Serenamente, admite que toda mudança acontece através dele.

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