Adeus aos gritos de guerra!

“Contra nós, da tirania, o estandarte ensanguentado se ergueu, ouvis nos campos rugirem esses ferozes soldados? Vêm eles até aos nossos braços degolar nossos filhos, nossas mulheres”. Esse é o da França. O do México começa assim:  “Mexicanos, ao grito de guerra, preparai o aço e o bridão, e estremece o centro da terra ao sonoro rugir do canhão” Observe o do Uruguai: “ A grandeza do Povo Oriental, se inimigos, a lança de Marte, se tiranos, o punhal de Brutus” “Orientais, a Pátria ou a Tumba! Liberdade ou com glória morrer!”. Nossa Pátria-Mãe, Portugal, não fica atrás: “Às armas, às armas, sobre a terra, sobre o mar; às armas, às armas! Pela Pátria lutar contra os canhões marchar, marchar! ”.

O leitor já deve ter notado que estou me referindo aos hinos nacionais, executados antes das partidas de futebol da copa do mundo. Não é à toa que os atletas mal-e-mal balbuciam os versos, de tanta carnificina que eles expressam. É um matar e morrer sem fim.

O nosso não fica atrás: “mas se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte…”. Para quem não sabe, clava forte é um grande porrete usado antigamente no combate corpo-a-corpo.

Nosso hino foi composto por Francisco Manuel da Silva, em 1822, e só em 1909 ganhou letra do poeta Osório Duque Estrada. Curiosamente, portanto, esse que é um dos quatro símbolos oficiais da República Federativa do Brasil, foi elaborado ainda no tempo do primeiro império, décadas antes da proclamação da República. Expressa o pensamento e o sentimento do início da era industrial, o que nos leva a compreender o modelo mental impregnado também nos mercados e empresas nascidos naquele ambiente que incitava à guerra e às armas, com insuspeitado orgulho.

Matar ou morrer! O mesmo cérebro réptil que caracterizava  os governantes da época, dominava também os primeiros administradores. Muitas empresas ainda hoje usam o mesmo e ultrapassado vocabulário belicista para atuar no mercado, interpretado como uma arena de guerra, feita de sangue, suor e lágrimas.

Muitas empresas, porém, e felizmente, já estão mudando, orientadas por valores virtuosos. Países, candidatos a nações, deveriam fazer o mesmo. Ao invés das guerras, a paz; dos combates, a solidariedade; das armas e canhões, o serviço e a entrega. E por que não?

Quem sabe na próxima copa, os países apresentem, em lugar dos hinos, o melhor de sua cultura musical, como as lindíssimas cançonetas francesas, os alegres corridos com mariachis mexicanos, as envolventes milongas uruguaias e o insuperável samba brasileiro, dentre outras expressões que melhor representam a alma de cada nação. Ou alguma canção de amor que todos têm em seus cancioneiros. É um desejo que pode muito bem ser concretizado. Acreditemos, pois!

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