A estupidez dos debates políticos e o que nos impede de ser nação

William Bonner retira da caixinha de acrílico mais um tema. Segurança. Alckmin convida Meirelles para debater o tema. Ambos os candidatos discorrem sobre a violência e exibem cifras não averiguáveis sobre homicídios, estupros, tráfico de drogas, policiamento, armas, munições e presídios. Referem-se ao que estão dispostos a investir em seus governos para enfrentar a criminalidade, reduzindo-a em 50 ou 60%, um chute – também não averiguável – a depender do quanto pretendem impressionar o eleitorado.

O debate não avança além da estupidez quando o tema retirado da caixinha é a corrupção. Dias convida Haddad para o debate, agora centrado no aparelhamento das controladorias, corregedorias e polícia federal. Falam, ainda, sobre a redução do número de partidos e das verbas destinadas ao Congresso. Novamente, citando números não averiguáveis.

Educação é o próximo tema. Ciro convida Marina para o debate. Mais uma vez montantes não averiguáveis são exibidos pelos dois, tanto em vagas que pretendem ampliar na pré-escola, no ensino fundamental e nas universidades.

As cifras não averiguáveis continuam na ampla seara da economia, tanto para a geração de empregos como para a taxação de impostos. E cada um faz a sua aposta no crescimento do PIB e na taxa de desemprego, os quais, pensando bem, são abstrações contábeis que não correspondem à realidade.

E assim a coisa vai em frente, nos demais temas. A questão não reside apenas nos lances não averiguáveis. Esse é o aspecto até menos estúpido dos debates. O máximo que conseguem é transformar cada candidato em um jogador leviano, capaz de decorar números e abordagens de temas surrados repetidos à exaustão em todas as eleições, sempre do mesmo jeito, sem nenhuma novidade.

A questão está em tratar mais a escassez do que a abundância. É sempre o ponto de vista da doença, não da saúde. Ironicamente, até quando o tema é a saúde, o debate é centrado na falta, como revela a preocupação com os atendimentos ambulatoriais, a realização de exames, as cirurgias eletivas, os leitos hospitalares.

O problema principal, no entanto, e que mantém o país na eterna condição de impedido de evoluir para nação, está em tratar mais “do que funciona” ao invés “do que importa”. Pois se assim fosse, William Bonner convidaria os candidatos a debaterem propostas de paz, não de segurança e violência. E o que cada partido discutiu e propõe sobre cada novo tema, como por exemplo dignidade humana ao invés da corrupção. E qual é a proposta do partido e do candidato para promover a dignidade em uma nação. Ou ainda discutir sobre a aprendizagem ao invés da educação, assim pensariam mais em cidadãos conscientes do que em ampliar o número de estudantes, mantendo a ignorância e a inconsciência em estágio elevado, apesar das vagas escolares – o analfabetismo funcional aí está como triste saldo de incongruências.

Sugiro outros temas para que emissoras, organizadores e partidos promovam debates que sejam mais educativos e tragam esperança aos eleitores. São eles: solidariedade, coragem, lealdade, perseverança, confiança, verdade, tolerância, bondade. Sem dúvida, a qualidade de diálogo aumentará consideravelmente ou, ao menos, diminuirá o nível de agressão e hostilidade. Quem sabe, assim, a gente consiga imaginar o que importa em uma nação. Quem sabe a gente consiga sonhar coletivamente e, diante desse sonho coletivo, a gente se anime em realizar o que muitos chamam de utopia.

Alguns acharão a proposta muito romântica, mas, quem sabe, ao invés de um país hostil, a gente consiga construir uma nação mais amorosa.

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