A chama dispersa

Chama é a palavra que uso como sinônimo de desejo, no livro “O Velho e o Menino”. Somos seres de desejo. Mantê-lo vivo é o que dá tonicidade à vida.

O grande desafio de quem busca o seu propósito é lidar com os vários fatores que diluem ou desorientam a chama. Usando uma linguagem tecnológica e atual, deixamos muitas telas mentais abertas ao mesmo tempo em nossa consciência. Descartamos as que não nos agradam, tratando de nos ater àquelas que nos dão algum prazer, mas também nos fixamos em outras, ameaçadoras e que incitam o medo. Um tremendo excesso de informações que mais entorpecem do que esclarecem. Nem sempre fechamos as telas anteriores, permitindo assim que continuem exercendo os seus efeitos, gerando mais confusão do que lucidez.

No livro, apresento os cinco desígnios, os quais, sugerindo um percurso, nos levam à descoberta do propósito. Um deles é justamente a chama e o chamado. Ele entra em cena depois que os três primeiros fizeram a sua parte, ou seja, a de ampliar o campo de visão. Apenas para frisar, o desígnio da chama e do chamado trata da conexão entre o mundo interior (a chama) e o mundo exterior (o chamado).

Entenda por “ampliar o campo de visão” o mesmo que “dilatar a percepção”. Os desígnios que precedem o da chama e o do chamado propõem outros pontos de vista para se examinar a realidade, tais como o do criador e da criatura, o da falta e da farta, o do sujeito e do objeto.

“Ampliar o campo de visão” e “dilatar a percepção” é o mesmo que “expandir a consciência”. E para que serve esse exercício? Para que, em um espaço mais aberto, o propósito possa ser descoberto. Nos estreitos da visão, percepção ou consciência, o verdadeiro propósito prefere não mostrar a sua cara. Instala-se em algum ponto cego até que o seu autor seja capaz de desvendá-lo.

O verdadeiro propósito não se dá, assim, tão fácil. O destino, sim, está dado. Esse não pede nenhum empenho. Mas desígnio é justamente o exercício da busca. Requer empenho, dedicação, entrega. Essa é a razão pela qual são poucos os abastados regidos por um propósito.

Retornemos ao início. A chama não se manifesta apenas no quarto desígnio. Como seres de desejo, ela já existe no início do percurso. Às vezes diminuta, tremulando e quase apagada, outras vezes incandescente, mas mal orientada. O desafio é justamente dar-lhe a direção correta e o impulso certo. Aí, então, ela será capaz de se conectar com o chamado, cumprindo o seu desígnio.

Enquanto isso, não nos dispersemos. Tudo vai dar certo!

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