Você tem fome de quê?

Você me pergunta como saber mais sobre a beleza. Questão bem oportuna, pois o belo parece ter fugido de vista. O caos, a poluição, a desarmonia, o pessimismo, todas essas coisas representam a ausência de beleza. E elas estão por aí, é só olhar para os lados.

Quem ama o feio, bonito lhe parece, você poderia dizer lembrando uma frase muito conhecida. Bastaria, então, transformar o feio em belo. Nesse caso, estamos tratando de estética, não de beleza. E, como estética, a beleza é uma questão de gosto. Depende do parecer subjetivo, do gosto de cada pessoa. Só que amar o feio pode ser um equívoco.

Se a beleza é uma questão de sabor, pois depende de gosto, pode ser também uma questão de saber, pois também depende de conhecimento. Picasso e Portinari, Monet e Di Cavalcanti, Van Gogh e Almeida Júnior.  Todas as suas obras causam enlevo. Também a música. Bach e Villa Lobos, Vivaldi e Tom Jobim, Beethoven e Pixinguinha. Quanto existe de beleza na arte! Saber e sabor, eis os parâmetros da beleza. E o resultado é a sedução. Mas o escritor russo Nikolai Gogol adverte: “o simples aproximar do belo não nos transforma. É preciso cuidado, o diabo também se traveste de beleza”. Então, como saber?

Em sua raiz, a palavra arte tem outro significado: ars, artis, ou seja, serviço, função. Indo mais fundo, vamos encontrar a beleza ao lado da bondade e da verdade, dois valores virtuosos. Dionísio, no século V, dizia que “a verdade, o bem e a beleza são três lâmpadas ardentes de fogo e uma não vive sem a outra”.  Nesse caso, a beleza é menos subjetiva, pois não depende apenas de gosto e de sabor. Se ela é “o esplendor da verdade”, como diziam Platão e Aristóteles, então se impõe e existe, independentemente de agradar ou não a quem quer que seja.

Então, porque nos vem a arte quando pensamos em beleza? É que a arte preenche a nossa fome de beleza. Buscamos a beleza como quem mata uma saudade. A fome é a saudade. Habita cada um de nós e aflora quando algo fora de nós a desperta. A arte ajuda a despertar a beleza que dorme, esquecida. Adélia Prado, a nossa querida poetisa, diz bem em seus versos: “não quero a faca nem o queijo, quero a fome”.  Ela entende de beleza.

Costumamos pensar que a beleza é algo a ser captado pelos cinco sentidos. Limitando-nos a eles, percebemos apenas o sentido de estética e nos tornamos vulneráveis à sedução. Mas a beleza é uma virtude e, para senti-la, temos de usar nosso sexto sentido, a consciência.

Quem compreendeu a beleza como um valor superior foi Agostinho, que relata em suas Confissões: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Tu estavas dentro de mim e eu estava fora, e fora de mim te procurava; com o meu espírito deformado precipitava-me sobre as coisas formosas que criaste. Estavas comigo e eu não estava contigo”.

Sei que você gostaria de uma resposta mais direta e pragmática. Mas aí a beleza seria apenas aparência. Faltaria a essência. A beleza só aflora na relação direta entre o fazer e o ser. Ser beleza para fazer beleza. A começar pelo olhar. Ou pela fome.

Qual é a sua fome?

Esse é o delicado fio que, sutilmente, puxa a meada da beleza. Experimente e se extasie.

 

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