Inquietações

A Carta do Joca:

Se vivi a minha vida? Se levei ou fui levado por ela? Se fiz escolhas ou se fui escolhido?

Não, não fiz as escolhas. Quando me dei conta, estava envolvido até o pescoço. E aí me enterrei nessa história. A história de tantas pessoas que, quando olham para trás, percebem que uma vida inteira se passou. Muitos caem nessa armadilha: a de não saber como é que foram parar em certo lugar ou por que ficaram fazendo algo.

Eu me perdi nessa história sem que me desse conta. Foi tudo rápido. Chronos é ligeiro. Aliás, essa é a sua principal característica. A outra é a de ser implacável. A tudo devora, sem dó nem piedade. Quando dei por mim, décadas haviam se passado, quase meio século, uma vida.

Na sua tenaz voracidade, arrancou-me pedaços. Por isso, eu não me sentia inteiro. Pedaços de mim ficaram pelo caminho, Esfacelei-me. O meu verdadeiro eu se perdeu nessa história e eu não sabia como resgatá-lo. Caso parasse para juntar os cacos, perdia o ponto, perdia a conta, perdia a vez.

No lugar do que me foi arrancado, ficou um vazio. Esse vazio é angustiante. É doloroso saber que lá se foram milhões de batidas de meu coração, sem chance alguma de tê-las de volta. Esvaíram-se. Sentia que aquele órgão vital clamava por uma chance real de vida consciente, sob o peso de uma tristeza tão imensa como a que marca a contagem regressiva de um tempo perdido.

Mas, e então? O que posso fazer de diferente? Como me recompor para aproveitar de fato e livremente minha vida? Tenho família, empregados, clientes, investidores. Estou preso nessa teia e sufocado pelo peso das responsabilidades que me sobrecarregam. Tenho dívidas a pagar, compromissos assumidos. Sobretudo, tenho que honrar a herança que me foi dada. Não posso fazer uma alteração radical em minha trajetória sem causar danos aos outros. Afinal, a minha vida está entrelaçada com muitas outras vidas. Sinto-me prisioneiro dessa teia de relações.

É essa falta de sentido o vazio que me angustia e que me rouba a paz de espírito. E a dúvida de mim mesmo.

Por quê?

Para quê?

Livro O Devir – Introdução, páginas 9 e 10.