Um gnomo no jardim

É bom ter um jardim em casa. Sempre, mas especialmente nas grandes cidades. O verde da vegetação e o colorido das floradas diminuem o impacto do concreto armado das construções – aquele cinza tão sisudo. Há quem viva em casas, ou mesmo em apartamentos, sem uma única planta. Como pode? Plantas e flores dão vida a qualquer ambiente. Mas não é tão fácil cuidar delas e talvez isso explique a preferência pelo inanimado nas habitações, muitas vezes inteiramente cobertas de pisos, impermeabilizando o solo.

Temos um jardim, em casa. Requer cuidados diários, principalmente as regas, mais ou menos frequentes dependendo das chuvas. Mesmo assim, de três em três meses contamos com uma ajuda intensiva, para as podas, retiradas de intrusos, adubação da terra e limpeza. Não é fácil encontrar alguém para esse serviço complementar.

Sidney foi uma tentativa. Aparecia com um auxiliar e tudo o que ambos sabiam fazer era intoxicar as plantas com pesticidas. Tínhamos de manter portas e janelas fechadas para que os venenos espalhados no ar não invadissem os cômodos. Sidney sumiu e nunca mais apareceu, para sorte de nosso jardim.

Wilson o substituiu. Não espalhava produtos venenosos, mas quando o vi arrancando uma planta que precisava ser transplantada, foi como se ele fizesse o mesmo com a minha cabeça, deixando os pés fincados na terra. Fiquei pensando na alma daquele infeliz, capaz de um gesto tão burocrático e destituído de sentimentos. Wilson pediu dinheiro para comprar terra para o jardim. Escafedeu-se levando o dinheiro.

Seu Pedro apareceu depois que já estávamos cansados de procurar um bom jardineiro. Ele cuidava de uma touceira de olho-de-gato que revestia o muro da igreja do bairro, quando passamos de carro. Minha mulher desceu e perguntou se ele topava conhecer o nosso jardim. Data e horário marcados e, em determinada manhã, seu Pedro apareceu. Corpo atarracado, chapeuzinho na cabeça, um jeito alegre de se comunicar, ele parecia um gnomo. Conversamos sobre plantas e outros assuntos. A simpatia mútua foi instantânea. Olhei para minha mulher e ela para mim, daquele jeito cúmplice de quem finalmente achou o jardineiro procurado há tanto tempo.

Seu Pedro nunca faltou aos chamados e, muitas vezes, eu o auxiliei pela simples alegria de vê-lo trabalhar. Ele tocava as plantas com delicadeza, jamais usava pesticida e nem preciso dizer como o jardim floresceu e as plantas ficaram viçosas sob os seus cuidados.

O que seu Pedro tinha que faltava aos anteriores?  Lembrei de uma história que conto no livro Metanoia – Os Passos. Era sobre um rico senhor que decidira criar um jardim, em frente de sua casa. Foi a uma chácara e comprou sementes das melhores flores. Preparou o solo conforme lhe ensinaram, semeou, regou e, meses depois, brotaram umas plantas franzinas. Algumas até ofereceram, timidamente, acabrunhados botões de flores.

A frustração dele aumentou ainda mais quando as ervas daninhas apareceram e se expandiram.  Não sabia mais o que fazer. Pediu ajuda aos vizinhos e jardineiros da região, sem sucesso. A situação só fez piorar.

Finalmente, ele ouviu falar de um jardineiro muito competente, cultivador dos mais lindos jardins e das mais viçosas plantações das redondezas. E foi procurá-lo, levando-o até sua casa. O homem fez algumas perguntas, antes de contemplar os estragos. Silenciosamente. Depois, virou-se e disse: “Meu senhor, tudo já foi feito. É bom começar a amá-lo”.

Esse era o segredo do seu Pedro, exatamente o que o diferenciava dos demais. Talvez ainda seja. Acontece que ele não pode mais nos atender. Foi chamado para cuidar de outro jardim, na eterna morada. Decerto, rodeado de colibris, foi recebido com pétalas de rosas, perfume de lavanda e sonoro canto de bem-te-vis. 

Sorridentes, os aguardavam – em alegre cortejo – outros gnomos, como ele apaixonados amantes de jardins.

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