Sem rosto nem nome

Anônimo, todos sabemos, é aquele que não tem nome. Mas não é só isso. É o ser humano que não aparece, não tem rosto. Nunca lembrado, faz o seu trabalho em silêncio, não alardeia. Não é chamado para a elaboração dos planos, nem depois que eles acontecem, muito menos para as homenagens, quando tudo dá certo.

Aparece nos momentos da labuta, mas poucos se dão conta de sua presença. Confunde-se com uniformes ou indumentárias. Nome e rosto são dispensáveis. O anônimo não é conhecido nem reconhecido.

Embora faça parte da corrente, é considerado o seu elo mais fraco. É ele quem limpa o bueiro, abre e fecha o registro, desliga a força, cuida das plantas da rua, dá comida ao cachorro, puxa o terço, adorna a mesa, rega a violeta, trata e alimenta o mendigo, dá milho às pombas, lava a calçada, conduz o cego, acende a luz.

A história também tem os seus anônimos e, sem eles, talvez jamais pudesse ser contada nem seria a mesma. Estamos vivendo a Semana Santa, que marca a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Também na Sagrada Escritura os anônimos estão presentes.

Cena 1 – Lc 19, 28-40

Jesus enviou dois discípulos, dizendo: “Sigam até a aldeia mais adiante. Entrando nela, vocês vão encontrar um jumento atado, que ainda não foi montado por ninguém. Tragam o jumento. Se alguém perguntar, digam que o Senhor precisa dele”.

Partiram e encontraram tudo como lhes foi dito. O dono, personagem anônimo, questionou, mas cedeu o jumentinho que, carregando o Mestre, fez a sua entrada triunfal em Jerusalém.

Cena 2 – Mt 26, 17-25

“Onde quer que preparemos a Páscoa?”,  perguntam-lhe – os discípulos.

Jesus responde: “Sigam até a cidade, à casa de fulano, e diga-lhe que meu tempo está próximo e quero celebrar na sua casa com os meus discípulos”.

Não fosse o fulano anônimo, talvez nem houvesse um lugar para que acontecesse a Santa Ceia.

Cena 3 – Lc 24, 13 – 29

Depois da Paixão e Morte, dois discípulos caminhavam pela estrada de Emaús, entristecidos. Um se chama Cléofas, o outro, anônimo.

Para eles, Jesus ofereceu a sua primeira aparição.

O anônimo é um tipo de anjo. Representa a ação fina, delicada e preciosa. É tão invisível quanto a alma e os próprios anônimos. Pressinto que entre eles exista uma estreita correlação.

Um anjo anônimo nos acompanha e nos aponta a arte da vida, o tempo todo. Para quem tem olhos de ver.

 

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