Seja inteiro!

“Seja inteiro!”

Você já ouviu esse “mandamento” e eu mesmo já escrevi alguns textos discorrendo sobre ele. Para mim, ser inteiro é uma das definições de integridade. Corpo, mente e alma unificados é o que nos faz íntegros. Inteiros, portanto.

Mas como ser inteiro se somos seres inacabados? E, sendo inacabado, como viver a própria integridade?

Confundimos integridade como algo linear. Nada disso! A integridade é sistêmica. O marido que, no leito de morte, confessa à esposa a sua infidelidade durante a vida em comum pode ter sido honesto, íntegro ele não foi. Pois se tivesse sido, pensaria nos sentimentos daquela que ficaria a remoer pelo resto da vida as traições vividas.

Ser inteiro é, sim, ser íntegro, mas isso implica fazer as coisas com inteireza. Inclui pensar em si, pensar no outro, pensar no todo.

Ser inteiro implica totalidade e viver os opostos. Somos seres inacabados, por isso, oscilamos da tolerância à irritação, da tristeza à alegria, da ansiedade à serenidade. Ser inteiro, e portanto íntegro, é viver essas condições humanas sem camufla-las, sem simulacros, sem representações. Ser inacabado é diferente de ser incompleto.

Somos seres inacabados e devires, ao mesmo tempo. Nosso devir é, um dia, viver o que somos potencialmente. E todos temos o potencial de ser algo maior do que o nosso “inacabamento”. A força dos opostos produz a potência que vai nos levar ao nosso devir. E o nosso devir é ser aquilo que já somos potencialmente. Esse é o nosso “seja inteiro!”.

É libertador saber que ninguém é inferior nem superior. Cada um é inacabado ao seu jeito e cada um tem um potencial único a ser descoberto. A jaboticabeira tem o potencial de produzir jaboticabas, assim como a amendoeira tem o potencial de produzir amêndoas. Cada uma delas tem o potencial para tornar-se aquilo que ela já é. Esse é o devir cada de uma.

Por isso, não há porque comparar-se. Vivemos a mesma condição: a de sermos inacabados. E cada um é “inacabado” à sua medida. O desafio, no entanto, é o mesmo: viver o que somos potencialmente. Cada um tem o seu próprio potencial para conquistar. Essa conquista é a nossa realização, a nossa plenitude e o nosso contentamento.

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