Sangue de barata

É comum dizer que alguém tem sangue de barata quando lhe falta brio e dignidade para reagir em situações ofensivas e desagradáveis.

Pois bem, contrariando o fadário popular, quero fazer uma breve defesa do tal sangue de barata. Às vezes, isso é justamente o que falta. Calma! Explico.

Tem gente – tão rara como irritante – que parece não se importar com ofensas e expectativas alheias. É bem verdade que são pessoas raras, porque a maioria é suscetível a esses desafios e se sente rejeitada, insultada, ignorada e enganada pelos demais. Sofre sem ao menos dar-se ao trabalho de procurar saber qual era a real intenção do ofensor. Padece, também, porque os demais não correspondem às suas expectativas, mesmo que as desconheçam pois não são declaradas.

Essas pessoas raras também são irritantes, porque parecem não ligar a mínima para o que os outros pensam delas. Ficam imperturbáveis diante de avaliações e julgamentos alheios, mesmo que impliquem difamações e calúnias. Inabaláveis, são senhores de si e gozam de suprema liberdade, sem depender de ninguém para formular seus pensamentos e expressar sentimentos.

Olhando assim, ao contrário do que o termo sugere, o sangue de barata parece ser um espírito elevado e interiormente livre. E isso pode mesmo ser verdade se acrescentarmos mais algumas características ao seu caráter evoluído. Costuma ser alguém caloroso e sensível à convivência, disposto a dar ouvidos às posições, opiniões e sentimentos dos outros. Aceita pontos de vista divergentes, além de compreender modelos mentais e formas de pensar a realidade antagônicos.

O oposto do ser humano com sangue de barata é o de pavio curto, um tipo de transtorno psíquico e emocional capaz de descarregar sobre os outros e o mundo toda a sua intolerância, intransigência e mau humor. Quem sabe um tantinho de sangue de barata não lhe fizesse bem…

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