Retorno ao lar

Vez e outra você não se sente meio fora de lugar? Como se não pertencesse ao ambiente, e na certeza de que esse mundo lhe nega acolhida? Um sentimento de pessoa estrangeira, embora esteja na própria terra natal? Com a impressão de que as coisas ao redor não lhes dizem respeito? E lhe acomete uma vontade imensa de retornar para casa, além de uma ansiedade atroz, achando que esse não é o seu lar?

Caso vivencie essas experiências, é possível que se identifique com a sensação de estar no exílio, embora em seu país. Mas, se não sente nada disso, é porque se acostumou ao mundo das ilusões, construído para as nossas carências, feito de medo e apego. Mesmo se ajustando a algo estranho, caminha a esmo, em busca de algo que não sabe bem o que é. Constrói mil casas, mas não consegue habitar nenhuma delas. A sua eterna criança, que ainda vive em você, sente saudade de outra casa. Anseia, portanto, retornar à origem, principalmente quando o adulto fraqueja, assolado pela fadiga ou fastio.

Estamos nesse mundo, mas não somos dele. Quanto mais nos mantivermos adestrados a tal mundo, mais acharemos que o lar original é a ilusão, não passando de puro devaneio. Só que a memória de casa continua nos perseguindo, como um lugar que nos chamasse de volta. Pois tudo começa em um jardim e esse princípio jamais deixa de habitar cada um de nós. Sentimos nostalgia.

Nostos, do grego, significa lar. Nostalgia não é somente a lembrança de um tempo passado. Refere-se a um sentimento existencial atemporal. Um desejo latente de voltar para casa. Essa casa permanece lá, com o mesmo jardim, supremo pois está acima das coisas do mundo. Pede que sejamos cultivadores mesmo fora dele, pois assim teremos condições de conviver melhor com a saudade e levar alento e alegria ao mundo de ilusões.

Ser cultivador é manter acesa a chama de nossa eterna criança, pulsante e vibrante, sempre que dela lembramos e a mantemos presente. Aonde quer que a criança vá, deixa pegadas do jardim supremo. Fica ainda mais alegre e realizada sempre que desperta, nos outros, a eterna criança que também neles vive. É quando conseguem, juntos, retornar ao lar.

 

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