Quarando

Uso e gosto muito da imagem do varal em que dependuramos peças de roupa. Como metáfora, é o fio que une todas as coisas, aparentemente sem sentido quando as vemos isoladas, mas revestidas de significado quando juntas.  

As peças de roupas são as múltiplas situações com as quais nos deparamos todos os dias. Um encontro aqui, uma conversa ali, uma nova relação, um conflito na relação de longa data, uma notícia, um anúncio, um pressentimento, uma surpresa, a rotina de sempre. Observadas uma a uma, restringem-se ao que são, nada mais. Algo para esquecer imediatamente.  Experimente, então, estendê-las no varal e verá que tanto a conversa despretensiosa como o encontro casual fazem parte da mesma trama. Não existe roupa inútil ou desinteressante quando, unidas por um mesmo fio, constroem um enredo.

Talvez seja isso o que se entende por pensamento sistêmico, apenas para sair da metáfora e entrar no que a ciência tem vasculhado há alguns anos. A raiz da palavra sistema deriva do grego syn + histanai, que significa “colocar junto”. Compreender as coisas sistemicamente implica situá-las em um contexto no qual a natureza de suas relações seja compreensível. O pensamento sistêmico ajuda-nos a entender que o significado, essa palavra que vivifica, não se encontra nas partes isoladas, mas no todo.

Voltando à metáfora: peças de roupas jogadas no chão não nos dizem nada, exceto exatamente o que parecem. Simples e variados objetos. No varal, elas contam uma história. O fio que as une transforma cada peça em um personagem, desenha o enredo, escreve a trama. As coisas criam vida quando se transformam em sujeitos.

Tome como exemplo uma empresa tradicional: nada além de uma penca de peças isoladas, sem nenhum enredo. Os cargos, as funções, as tarefas; os departamentos, os setores, as áreas. Todas têm a sua importância, mas assim, fragmentadas, não oferecem um sentido. É no varal que elas constroem uma história e se potencializam mutuamente.

Esse varal é o alinhamento entre as várias peças e o significado daí decorrente. Constitui a junção dos valores e do propósito. É a partir daí que as partes se organizam e criam sentido. Sem isso, será uma empresa com anomia, ou seja, destituída de significado. É claro que todos os envolvidos se empenham em gerar resultados por meio de seus cargos, funções, tarefas, e via departamentos, áreas e setores. Mas tudo isso exige o emprego de muita força, pois não se conta com a energia decorrente do propósito. O que funciona está no lugar do que importa. É o efeito nefasto e comum da anomia, uma epidemia que assola a maior parte das empresas.

A anomia, essa ausência de propósito e significado do sistema-empresa, contamina o sistema-mercado na mesma medida. A ausência de alinhamento e de enredo interno se estende, envolvendo clientes e fornecedores. É quando se torna evidente que a crise de fora é apenas o eco das várias crises internas.

Voltemos a quarar as roupas. Na síntese desse varal que tratamos de manter sempre à luz do sol!

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