Qual é a medida da alma de uma empresa?

As questões emocionais e de relacionamento fazem parte da alma de uma empresa. Não dá para ignorá-las, delas ninguém sai ileso. Elas mexem com o ânimo das pessoas e afetam diretamente a qualidade do trabalho. É preciso muito autocontrole e autodomínio para mantê-las afastadas das outras áreas da vida. E aí? Como lidar com as questões afetivas e emocionais em uma empresa que, em geral, está pressionada pelos desafios do negócio, dos resultados, das exigências dos clientes?

É papel do líder elevar a alma da empresa. É isso que vai muito além da otimização dos recursos, prática comum dos gerentes. Um líder precisa elevar a alma da empresa e isso significa impulsionar o desejo das pessoas. Um propósito é capaz disso. Uma empresa com dimensão causal pode oferecer um propósito para pessoas que vivem uma vida sem sentido. Significado é combustível para a alma. Valores também são capazes disso. Quando um líder promove valores virtuosos no trabalho, ele transforma trabalho em vida. E oferece condições para que as pessoas saiam de suas anomias.

Tudo o que promove o desejo cria libido, que é outro nome para a motivação. É papel do líder impulsionar o desejo e abrir espaço para a libido.

As questões emocionais e de relacionamento são dúbias. Elas expressam, de alguma forma, sentimentos. Mas ao lidar com sentimentos, o líder pode errar na medida e pegar o caminho errado. Pensando em promover a alma da empresa, ele acaba patrocinando a empresa sensível, a empresa dengosa feita de pessoas mimadas. Isso acontece quando, ao invés de promover o desejo, ele tenta suprir a carência. Em vez de exaltar o criador, acaba por enaltecer a criatura. E, dando espaço à criatura, alimenta a dor e o sofrimento. É o ambiente das lamúrias e do chororô. Nessa hora, o propósito sai de cena.

O líder que embarcar na canoa furada das carências não terá tempo para mais nada. As carências são impossíveis de satisfazer. E tratar das carências é enaltecer a criatura. Promover o desejo é evocar o criador, a essência, aquela que está voltada para fora, para o serviço, para a contribuição.

A alma de uma empresa é uma alma coletiva. Como se fosse a união das almas de todos os seus integrantes. Mas a alma individual nunca será a alma coletiva. Poderá representar a alma da empresa, mas sempre será a própria alma, com intensidades diferentes de carências e desejos. A carência é sempre egóica e, em demasia, rompe a inteligência emocional que a administra e avança para a patologia clínica, num grau que a empresa não consegue tratar internamente. No fundo, a carência sente medo. O líder pode encorajá-la e afastar o medo na empresa. Mas não consegue afastar o medo da própria pessoa. Às vezes, é preciso buscar ajuda externa.

Qual a medida da alma de uma empresa?

É compreender essa natureza humana. Aceitar os desequilíbrios humanos. Cuidar do que pode ser cuidado e encaminhar o que precisa ser encaminhado. A carência quer ser digna de dó e de pena, mas o desejo prefere a compaixão e o encorajamento. Na compaixão há compreensão, mas há também repreensão.

Qual é o papel do líder na gestão da alma da empresa?

 “Uma noite, um velho índio Cherokee contou ao seu neto sobre a batalha que acontece dentro das pessoas. Ele disse: – Meu filho, nossa batalha interna e eterna é entre dois lobos dentro de nós. Um deles é mau: é a raiva, a inveja, o ciúme, a tristeza, o desgosto, a cobiça, a arrogância, a pena de si mesmo, a culpa, a agressividade, o ressentimento, a inferioridade, as mentiras, o orgulho falso, a superioridade e o ego. O outro é bom: é a alegria, a paz, a esperança, a serenidade, a humildade, a bondade, a benevolência, a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a fé. O neto pensou naquilo por alguns minutos e perguntou ao seu avô: – Mas qual lobo vence? O velho Cherokee simplesmente respondeu: – Aquele que você alimenta”.

Alimentar o que uma pessoa tem de melhor é oferecer condições para que ela eleve a sua alma. De forma coletiva, é esse o exercício do líder e a sua mais nobre função.

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