Presenças e ausências

O prazer depende da presença de coisas que são e funcionam como objetos de desejo, como o alimento e a bebida. Há Há quem acredite que o prazer é a única coisa boa, e a dor, a única ruim. Por isso, investe seu tempo e dinheiro só nas que considera boas. São os chamados hedonistas. A palavra hedonismo vem do grego hedonikos, que significa “prazeroso”, pois deriva de hedon ou prazer.

Para muitos, a felicidade é uma conta em que os momentos de prazer ganham de longe dos momentos de dor. Sua vida é, então, uma busca incessante de momentos de prazer, evitando ao máximo os sofrimentos. Isso pode ser visto como procura, mas também fuga.

Existe, no entanto, uma outra palavra. O contentamento. Implica um conteúdo interno que independe das coisas de fora. Enquanto o prazer se alimenta de presenças, o contentamento se alimenta de ausências.

Esquisito? Pois você já ouviu falar que o melhor da festa é esperar por ela? Existe contentamento no tempo da espera, feito de imaginação e deleite. Existe contentamento na recordação, pois aquece o coração ao permitir que se rememore pensamentos e sentimentos. Existe contentamento na saudade, como a de esperar o retorno do filho que partiu. Existe contentamento na solidão e no silêncio, que é o reencontro consigo, a profunda instrospecção.

Muitas vezes esperar pela festa é melhor do que a própria festa, assim como esperar pela viagem pode ser melhor do que a viagem. O prazer mora no finito das coisas e o contentamento, no infinito, lá onde o desejo continua latente – pulsa e vibra.

Prazer é bom, felicidade também, mas tanto um como a outra podem acabar nos impedindo de fazer o salto necessário para um estágio mais avançado. Seria como embriagar-se e empanturrar-se tanto de prazer e felicidade com os antepastos e aperitivos que acabamos por abrir mão do nutritivo prato principal.

Prazer é bom, felicidade também, mas nada supera a plenitude de viver com alegria mesmo diante das ausências, ou seja, sem depender das presenças. São Francisco chamava de perfeita alegria o bem viver alheio às coisas do mundo. Bastava, a ele, as coisas do coração. Um contentamento sem fim, onde tudo é gratidão.

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