Plebiscito na caixa registradora

Em tempos de políticos malucos e corruptos, e apesar deles, dois agentes na sociedade podem segurar a barra do planeta e continuar insistindo na construção de um mundo melhor. E quais são esses valorosos resistentes? Os empresários e os consumidores, para quem se justifica a existência dos negócios.

Um desses empresários, que vez por outra dá a cara para bater, inconformado diante de atrocidades na seara que deveria primar pelo bem público, é Howard Schultz, presidente da Starbucks.  Contrapondo-se ao decreto de Donald Trump contra refugiados e cidadãos de sete países, a maioria muçulmanos, sua rede mundial de cafeterias alojará gratuitamente e oferecerá trabalho aos afetados pelas medidas de exclusão. Animadas pela reação do empresário ao novo presidente norte-americano, e seguindo seu exemplo, outras organizações começam a prestar apoio às vítimas.

A decisão de Howard, compartilhada por e-mail com a sua equipe, inclui a contratação, nos próximos cinco anos, de cerca de dez mil refugiados nos 75 países em que a rede está presente. Ou seja, a Starbucks quer servir café para cristãos e muçulmanos, sem nenhuma distinção, inclusive entre seus colaboradores. A intenção, aliás, está na própria origem do negócio que tanto sucesso faz onde quer que lance suas bases.

Howard também é contrário à polêmica separação do México. Para ele, devem ser construídas pontes ao invés de muros entre os dois países.

É claro que se pode atribuir a iniciativa solidária dele a interesses econômicos. Não faltará quem pense que ele pretende mesmo é resguardar suas lojas, muitas delas abertas em berços dos próprios refugiados. Para citar um só exemplo, no México são cerca de 600 pontos de venda.  

Aliás, não é a primeira vez que ele se envolve em questões humanitárias. Líder consciencioso de uma organização construída à luz da ética, ele ofereceu sua contribuição para amenizar os efeitos da tragédia provocada pelo furacão Katrina, que varreu a região litorânea do sul dos Estados Unidos, em 2005. O que importa é que ele não se omite, ao contrário, se posiciona e faz a sua parte.  

A outra parte cabe ao segundo agente mais importante da sociedade marcada pela ânsia contínua de fazer compras: o próprio consumidor, aquele que, por meio do bolso, tem o poder de decidir a quem punir e a quem valorizar. É um tipo de plebiscito em que a urna é a caixa registradora. Certamente, a rede Starbucks contará com a solidariedade de seus colaboradores e clientes que simpatizam com as suas posições, tal como aconteceu no episódio do Katrina.

Afinal, é para isso que servem os empreendedores, os empresários e as empresas.

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