Ouse construir a ponte

Quem resolveu dividir o mundo em dois, não sei, mas foi aí que o inferno começou. Quase ninguém vive por inteiro e leva uma vida plena. Sempre se resume à metade. Nesse sentido, nunca é demais lembrar que o próprio conceito de diabo (do latim diabolus), significa aquele que está dividido.

A ciência diz que o cérebro tem dois hemisférios. O esquerdo é preciso, concentrado na matemática, nos cálculos, na linguagem; o direito, intuitivo e emocional, trabalha com a música, a arte, a poesia. O esquerdo, o lógico; o direito, o lúdico. As funções de cada um deles não se misturam, do ponto de vista fisiológico. Tome como exemplo o mundo dos negócios, feito de hemisfério esquerdo. Poucas são as empresas que avançam heroicamente para o direito, dispostas a revestir o negócio com arte, imaginação e criatividade.

Empresas de um único hemisfério são conduzidas, é claro, por líderes e equipes de um só hemisfério. São pessoas e empresas que sobrevivem com os mesmos silogismos e paradigmas, repetindo-se ano após ano. Metódica e regradamente.

O saudoso Rubem Alves metaforizava a distinção entre os hemisférios com as duas caixas: a de ferramentas e a de brinquedos. A primeira carrega a destreza e o poder; a segunda, o coração e o prazer. Penso que ele, de maneira poética, dizia a mesma coisa: vivemos divididos. Nas empresas, constato com frequência: quando as pessoas vão para o trabalho, esquecem a caixa de brinquedos em casa.

Temos de afastar a mutilação, recuperando o nosso ser integral, para ser científicos e artistas ao mesmo tempo. Precisamos descobrir e ativar a ponte que une os dois hemisférios e, assim, levarmos sempre conosco ambas as caixas, uma em cada mão. Matemática e música. Cálculos e arte. Prosa e poesia.

Em meu novo livro, a ser lançado e breve, trato do mundo dos objetos e do mundo dos sujeitos. Este, o dos sujeitos, foi muito afetado pelo hemisfério esquerdo ou pela caixa de ferramentas. Pessoas foram reduzidas a objetos. É algo muito comum nas empresas, onde gente é tratada como mão-de-obra e considerada um item de custo na avaliação de resultados. Nada mais que um meio para atingir algum fim.

Mas qual é mesmo o propósito de uma empresa? Sem os dois hemisférios ou as duas caixas de Rubem Alves, jamais conseguiremos definir um propósito que valha verdadeiramente a pena. Tratemos, portanto, de ousar a conjunção. Quem sabe, aos poucos, unindo os dois polos, vamos nos tornando divinos, ou seja, seres que, com discernimento e criatividade, conseguem elaborar pacientemente a ponte vital para a vida plena.

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