Onde está a novidade?

Uma paisagem exuberante contemplada por um espectador triste transforma-se em um cenário triste. Uma bela flor examinada por um apreciador ansioso perde o seu encanto. Uma boa comédia assistida por uma pessoa melancólica torna-se patética.

Quando, depois de muitos anos, revisitei a casa de minha avó, onde morei na infância, fiquei estarrecido ao constatar que aquela escada em que havia sofrido várias quedas mortais não era tão perigosa assim. Nem as quedas, tão graves. Mas, em minha representação, continua viva a ameaçadora sequência de degraus que desafiava a minha coragem.

Também noto esse fenômeno nos leitores de meus livros, quando releem edições recentes. Fazem perguntas, quase certos de que o texto foi alterado e que também mexi no enredo. Quando respondo que não houve mudanças, eles ficam espantados, até duvidando de minha informação.

A paisagem é a mesma para quem a contempla; a flor é a mesma para quem queira apreciá-la; o filme é o mesmo para todos os espectadores; da mesma forma, a escada de minha infância e os livros relidos.

Então, onde está a novidade?

É na capacidade de admiração de situações repetidas que as coisas se renovam. Admirar é mirar com atenção. A partir daí as coisas recebem um nome novo. A recriação é inesgotável, pois não é a coisa que muda, mas o olhar de quem a observa.

Vale repetir a indagação: onde está a novidade?

A novidade está exatamente nos olhos de quem vê. O mundo se renova quando nosso olhar está vazio de julgamentos e pressupostos. Só assim pode abrir-se para a eterna novidade, mesmo diante da rotina e de repetições.

É aí que está, portanto, nosso desafio supremo: manter as vistas limpas de passado e de futuro. É quando os milagres acontecem. E o maior de todos os milagres é justamente a capacidade transcendente que todos temos de ver milagres.

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