O toque de Midas

A história é conhecida, mas vale relembrar. Midas era um rei com uma vida abastada, em seu castelo. Embora possuísse muitas riquezas, sempre desejava aumentá-las.  Um de seus passatempos prediletos era contar moedas de ouro, tal a paixão que nutria pelo metal precioso.

Tamanho apreço fez com que Midas desenvolvesse um dom: o de transformar tudo em ouro a partir de um simples toque. Ele percebeu isso quando, ao arrancar um ramo de carvalho, este se transformou em ouro em sua mão. Depois foi uma pedra, um fruto da macieira, uma flor.

Midas, o rei, não cabia em si de contente ao constatar a extraordinária habilidade. Agora sim poderia ter o quanto quisesse do que mais amava. Feliz da vida, ordenou aos criados que preparassem a refeição para comemorar. Qual não foi sua surpresa, quando, ao levar o pão à boca, foi impossível degustá-lo, pois se transformou em ouro. O vinho, tão apreciado, tocou sua boca na forma de ouro derretido. O susto maior veio quando sua filha se aproximou para um abraço e, em seguida, virou uma estátua dourada.  O que era dom e alegria transformou-se em medo e pesadelo. Para completar, ele teve o mesmo fim!

Essas coisas da mitologia grega sempre guardam algum ensinamento. Uma pessoa pode existir em duas dimensões: como sujeito ou como objeto. Uma pessoa-objeto identifica-se com as coisas que possui: a casa, o carro, o dinheiro. Ama tanto as coisas que faz parte delas.  O inverso também é verdadeiro:  as coisas também são partes da pessoa-objeto. Alguém que seja muito ganancioso e obstinado por dinheiro começa a ser as características do dinheiro.

Quem ama coisas, vai aos poucos se coisificando. As pessoas se tornam, gradativamente, o que amam. Por isso é importante amar algo que nos eleve. Uma pessoa-sujeito vai amar o que faz dela um ser ainda melhor. Não se trata, portanto, de algo que ela toca materialmente, mas sim o que é capaz de tocá-la em outras dimensões.

O toque de Midas, que transforma tudo em ouro, é considerado um elogio para pessoas bem-sucedidas nos negócios e em conquistas financeiras e materiais. Mas vale lembrar o saudoso Millôr Fernandes: “o importante é ter sem que o ter te tenha”.

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