O santo e a cidade

– Por que me persegue?

Essa foi a pergunta que ele ouviu. Do nada.  Naquele tempo não havia mapas. A viagem era tão perigosa, quanto os muitos assaltantes ao longo do caminho. Mas ele era destemido e nada o deteria. Tinha um objetivo em mente e estava determinado a cumpri-lo, uma vez concluído o percurso que levaria uns dez dias, no mínimo.

Tudo correu bem, felizmente. Na véspera da chegada, do alto do monte, pôde enxergar a cidade. Era uma linda vista, motivo de celebração!  A viagem estava no fim, mas seu objetivo apenas começava. Foi quando escutou:

– Por que me persegue?

Depois da voz, seguiu-se um clarão. O máximo que ele conseguiu foi proteger o rosto de tão intensa luminosidade. Impossível fugir, sair correndo. Ouviu outra vez:

– Por que me persegue?

Paralisado de espanto, ele murmurou perguntas vagas, temeroso das respostas:

– O que é isso? Quem é esse?

E a resposta fulminante foi:

– Eu sou o Amor, a quem você persegue.

Assustado, ele tentou abrir a boca para falar, mas não conseguia emitir nenhum som. Cego pelo clarão, agachou-se, em um gesto de autoproteção, pois o mundo ao seu redor tinha se transformado em breu.

Inconsolável, durante três dias e três noites não comeu nem bebeu. Todo o seu conhecimento, as convicções e as verdades não serviram para nada. Estava à mercê do imponderável.

Vivenciava, no entanto, uma metanoia, quando a visão se abre para uma nova vida e quando consegue ver o que antes não via. Caso continuasse a ser Saulo, nada aconteceria com a cidade. Mas, depois de sua transformação, preferiu chamar-se Paulo. Paradoxalmente, o nome que significa pequeno, batiza a maior cidade da América Latina. Ela nasceu exatamente no dia em que se comemora a conversão dele, quando o objetivo de perseguir e combater o Amor transmutou-se no propósito de buscar e promovê-lo.

O Amor é paciente, o Amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se envaidece. Não maltrata, não se irrita facilmente, não guarda rancor. O Amor não se alegra com a injustiça, mas sim com a verdade.

Que os ensinamentos daquele obstinado caminhante   se transformem em mandamentos na consciência de cada cidadão.

Salve o dia de São Paulo!

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