O que que vem antes da esperança

Diz-se que a esperança é a última que morre. A frase faz parte do fadário popular. Fadário é como um presságio, algo do qual não se pode fugir, pois já está determinado. Mas esse mundo feito de certezas é muito perigoso. Pois a esperança talvez seja a penúltima a morrer. O último suspiro é precedido de um estágio mais difícil e definitivo. A vida se esvai quando perde o sentido e não existem mais razões e motivações para ancorar seu propósito.

É algo muito diferente da depressão, que faz alguém se acobertar e transformar as luzes do dia em penumbras psicológicas, de maneira a requerer cuidados e tratamentos terapêuticos. Refiro-me a outra antecipação da morte, um sentimento mais comum e que assola grande parte da população: a desesperança. Ou, em linguagem mais usual, o desânimo. A etimologia da palavra é ainda mais reveladora: ausência de anima ou de alma.

Considere os ambientes de trabalho, onde passamos muito tempo de nossa vida: 65% das pessoas são desconectadas das empresas em que atuam. Apenas 13% se sentem engajadas com a companhia e a atividade que realizam.

O que esses 13% descobriram, enquanto os demais não tiveram a mesma sorte? Decerto, muitas devem ser as razões. Mas podemos arriscar um palpite com base em observação e pesquisa e na tentativa de encontrar um padrão comum: tais pessoas são dotadas de convicção.  

Antes que a palavra seja interpretada como um conjunto de certezas de alguém com opinião formada sobre tudo, entenda por convicção algo bem diferente disso, pois remete mais a uma busca do que a um ponto final, onde tudo já esteja definido e cristalizado.

Como busca, a convicção é o elo que une duas outras palavras: vocação e convocação. A primeira, advinda do mundo interior, é uma potência feita de dons e talentos, aguardando para entrar em cena no drama da vida. A segunda, o conjunto de demandas e necessidades do mundo exterior, a própria vida com suas tramas, aguardando a nossa preciosa contribuição.

Quando você olha muito para fora, sem considerar o que está dentro, o ímpeto é sentir-se impotente diante das mazelas desse mundo. Quando olha muito para dentro, sem levar em conta o que está fora, o sentimento é de que não há lugar onde seja possível encaixar o próprio potencial. De um lado, a vítima cuja tentação é culpar os outros por sua desdita. Do outro, o ególatra, para quem o mundo é mera peça de encaixe.

“Você largaria tudo para me seguir?”, essa é a pergunta que a convicção lhe faz como teste. Se a resposta for não, continue a busca. Mas, para não ficar em moto-contínuo, vale uma reflexão. Ainda na linha de desnudar palavras, existe uma outra: desalmado. Embora pareça bem semelhante, difere de desanimado. Desalmado, segundo o Aurélio, é quem não se sensibiliza, não se comove com a tragédia do próximo, nem corresponde ao amor que recebe. É considerado desumano e desnaturado. Na busca proposta, é fundamental ter um olhar generoso e compassivo para com o mundo exterior.

Então, se a resposta for sim, você encontrou o que procura, quer e deseja de todo coração. É, em si, a benção das bençãos. O sentido da vida. A graça. Celebre!

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