O que nos impulsiona e o que nos retém

Em nenhuma outra esfera da vida ele se apresenta de maneira tão veemente, como na religião, embora seja encontrado na política, nas vertentes da medicina, da sociologia e até da biologia. Refiro-me ao sistema de crenças.

Reféns dele, cuja origem, razões e motivações já se perderam no tempo, as pessoas ainda o praticam de maneira automática como se estivessem programadas. Instalado no inconsciente, induz à repetição de comportamentos infundados. Aliás, o efeito da causa é esse mesmo: engessar comportamentos, tornando-os automáticos e alienados, como num transe.

As crenças sabotam os valores. Reúnem aquilo em que acreditamos, certos de que se trata da verdade. Elas nos desviam daquilo que, de fato, somos, os nossos valores. “Estamos” as nossas crenças, mas “somos” os nossos valores.

As crenças nos separam. É a minha contra a sua. Um embate sem fim, em que ninguém sai de dentro de si mesmo. Os valores, por sua vez, nos unem. É curioso observar que muitas divergências políticas e religiosas estão no plano das crenças, pois os valores convergem, quando tratamos de nos aprofundar um pouco mais.

Tomemos como exemplo dois mundos: um retido pela crença, outro movido pelo valor.  

A competição é um comportamento. A sua origem está na intenção de assegurar a própria sobrevivência. A crença que está por trás disso é na escassez. O efeito-perverso é um mundo mais fragmentado, em que a disputa e o isolamento são decorrentes, acentuando ainda mais a escassez. Ao acentuar a escassez, reforça-se a crença.

A cooperação é um comportamento. A sua origem está na intenção de prosperar em conjunto. O valor que está por trás disso é o da abundância e de um sol que brilha para todos. O efeito-virtuoso é um mundo mais unido, em que o cuidado e a solidariedade são decorrências, criando ainda mais abundância.

A crença é uma imposição que jamais dará certo, a não ser em legiões e facções em transe. O valor, por sua vez, é uma posição individual com grandes chances de ser também coletiva, gerando unicidade.

As crenças não são aglutinadoras, mas os valores nos tornam predispostos a nos importarmos com todos os outros, aceitando-os como são, independentemente (ou apesar) de suas crenças. As crenças nos retêm, mas os valores nos impulsionam.

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