O novo cérebro

Há quem não viva sem ele. Aonde quer que vá, trata de levá-lo, imprescindível presença. Inquieta-se quase à exasperação, quando o esquece ou o deixa em casa. É como se perdesse o chão. Preocupa-se em demasia, quando ele emite sinais de que não vai dar no couro. Depende daquela potente capacidade de memória e de armazenamento de informações, usada, também, como meio de comunicação e de relacionamento. Se bem que, às vezes, paradoxalmente, restringe a interação face a face, por facilitar o contato à distância.

Esse aparelho é como se fosse uma parte do próprio corpo de muitas pessoas. Externa, compete com outra, essencial e de nascença, chamada cérebro. O que parece, no entanto, é que quanto mais ocupamos o externo, mais nos desocupamos do interno.

Sim, o celular é o novo cérebro. Serve tanto para alimentar as relações interpessoais como para assegurar que seus portadores se mantenham a par do constante fluxo de acontecimentos e conhecimentos. Armazena informações e imagens, faz registros instantâneos de sons e retratos. Multimídia, permite ao usuário ouvir músicas, ler textos, fazer cálculos, jogar e se entreter.

Superou de longe o canivete suíço e o bombril, com as suas mil e uma utilidades. Viraram peças de museu. O celular reina absoluto e já parece impossível viver sem ele. Mas se ele é um bom concorrente para o cérebro, não o é para a consciência.

A consciência não ocupa espaço nem precisa ser carregada no bolso ou na bolsa. Suas baterias nunca descarregam e é impossível esquecê-la sobre a escrivaninha ou a mesa da sala. Para onde vamos, a consciência está em nós. E, dependendo das nossas ações, ela tanto nos segue como  nos persegue.

O celular, esse novo cérebro, pode nos entreter diante das preocupações e do medo, mas não é capaz de nos livrar deles. Às vezes até os exacerba. A nossa consciência, no entanto, se for nutrida com boas emoções e cultivada com práticas virtuosas, se fortalece continuamente, diante das agruras do dia-a-dia.

Todo mundo tem uma consciência dentro de si. Pode até estar amortecida, adormecida ou entorpecida. Mas precisa despertar e assim permanecer. Mantê-la como um poderoso farol é viver uma vida consciente, condição que o celular não proporciona e, ao contrário, pode nos levar ao oposto.

Se quisermos buscar e manter a saúde física, mental e espiritual, teremos de ser determinados a mudar nossa escala de valores. E isso implica alternar prioridades, largar vícios, calibrar ambições e assegurar que a consciência esteja no comando.

Diante de tantos estímulos e seduções de nosso novo cérebro, não podemos esquecer em quem estamos nos transformando enquanto vivemos a aventura da vida. E esse fundamental parâmetro quem nos oferece, de graça e felizmente, é a consciência. Quanto mais usada, mais benéfica e perfeita se torna!

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