O ladrão e a atriz

Esse artigo poderia ter três títulos: “O LADRÃO E A ATRIZ”  ou “QUE FORÇA É ESSA?” ou “DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL”. 

A oportunidade faz o ladrão – certamente você já escutou essa frase. E assina embaixo. É senso comum. Mas, pode ser um contrassenso. Ao pensar assim, acabamos tentando evitar ao máximo que o gatuno tenha espaço para exercer seu desvirtuado talento. Refreamos o ímpeto de rapinagem do desalmado, mas, em contrapartida, anulamos oportunidades que poderiam gerar novas realidades.

Visitei o Camboja, recentemente. Não faz muito tempo, ali aconteceu um dos maiores genocídios da história da humanidade: dois milhões de pessoas foram mortas em quatro anos por um governo sob o comando de um tirano e de uma organização extremista denominada Khmer Vermelho.

Dizimado, o país renasceu há cerca de dez anos e tenta se recompor por meio da agricultura do arroz, da mão-de-obra têxtil e do turismo. Este, muito estimulado, depois que a oportunidade levou a atriz Angelina Jolie a filmar por lá o grande sucesso “Tomb Raider”. O cenário escolhido para sequências importantes foi o templo Ta Prohm, em Angkor, lugar extraordinário onde viveu uma civilização do século IX, redescoberta por europeus, em 1858. Uma relíquia de valor incalculável, incrustada em um Camboja ainda perigoso, porque concentra o maior número de minas não detonadas do mundo.

Quando Angelina lá esteve pela primeira vez, sensibilizou-se diante daquela rude, cruel realidade. Criou uma fundação para crianças desamparadas e adotou duas, uma cambojana e outra vietnamita. Hoje, a atriz é mais admirada que o próprio rei, onde vigora uma monarquia parlamentarista, e mais respeitada que os monges locais. Para a população, ela é como se fosse uma dama de honra do país.

Diante do ladrão e da atriz, a pergunta instigante é: que força é essa? Que força é essa que move tanto um como a outra? Que força é essa que tem o poder de corromper ou de construir? Que força é essa que pode alimentar tanto a ambição como a ganância? O vigor é o mesmo, porém com destinações opostas.

Essa força faz parte da nossa liberdade de escolha. É uma energia em estado puro, capaz de gerar impulsos negativos ou positivos. O íntegro abominará o impulso negativo, exaltando o positivo. O compassivo compreenderá as duas possibilidades, mas ao invés de refrear o impulso negativo, o reconduzirá para o melhor duto.

Cabe a cada um de nós decidir, guiado pela própria consciência, o que fazer com nossa libido, essa força ou energia que nos move. É muito fácil permitir que ela resvale para o lado dos impulsos negativos: basta ceder o comando à carência. Para gerar impulsos positivos, é preciso criar algo que a atraia, um imã: é o desejo.

A oportunidade nem sempre faz o ladrão, que é governado pela ganância. Pode, ao contrário, gerar heróis, movidos por uma ambição, capazes de contribuir decisivamente para reconstruir, moral e economicamente, até mesmo um território devastado, recuperando sua força de nação.

A oportunidade é como um chamado. Ecoa, mas nem todos estão preparados para escutá-la. Na verdade, é a consciência que ouve. Mas, para isso, tem de ser treinada à luz das virtudes, da mesma maneira que são exercitados os músculos nas academias, para que se desenvolvam e se fortaleçam. Igualmente, trata-se de repetir os movimentos tantas vezes quantas for necessário, para que a retidão de caráter seja natural como água de nascente.

O caráter forja o destino. A falta de caráter, também. Examine a história de pessoas corruptas e verá que tiveram tristes destinos. No meio do caminho, até pode ser que pareçam ter “boa sorte”, mas basta acompanhar sua trajetória para ver que não passava de algo aparente e transitório.

Por isso, cercear as oportunidades restringe apenas e tão somente… as oportunidades. Leis e controles não são capazes de conter um coração rompido (daí a palavra corrupto) e de nada adianta escalar raposas para vigiar o galinheiro. “Quando as pessoas são puras, as leis são desnecessárias; quando são corruptas, as leis são inúteis”, bem disse o estadista Benjamin Disraeli. Os puros são os devotos, ricos de verdade, que não deixam a malícia substituir a índole.

É Deus ou o Diabo na Terra do Sol. Essa escolha determina o caminho e o destino. Então, em vez de trabalhar com dor, é melhor colocar a dor para trabalhar. Como fez Angelina Jolie.

Façamos como ela, enquanto vigiamos.

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