O conflito pode nos tirar do torpor!

Nos últimos meses, a quantidade – e intensidade – das manifestações que tomaram o Brasil assustaram muita gente. O susto faz sentido, afinal, quem dorme em sono profundo se apavora ao despertar com gritos e cantorias. Um dos pontos a se observar, foi a forma como as pessoas se organizaram. Desconhecidos, conectados por redes sociais, mas com um propósito comum: mudança. Como tudo está conectado com todos, é possível aproveitar o que acontece no macro – a sociedade, para avaliar o que acontece no micro – as empresas.

As pessoas cujos gritos foram ouvidos até do outro lado do oceano, eram grupos ou equipes?

Grupo é diferente de equipe. Não só na forma de atuar, mas também na magnitude dos resultados. Grupo é uma porção de pessoas trabalhando juntas, sem muita responsabilidade e autonomia, enquanto equipe é um conjunto de pessoas dirigidas pelo mesmo propósito e orientadas pelos mesmos valores.

Nos grupos, costuma reinar a paz e a harmonia, ou seja, “eu não me meto com você, você não se mete comigo”. Ninguém se responsabiliza por nada, os objetivos são desconhecidos, as pessoas não sabem por que fazem o que fazem. O conflito é evitado a qualquer custo, inclusive no discurso, sempre a favor da harmonia sustentada por relacionamentos vazios, pois inexiste expressão de sentimentos.

Para que o grupo se transforme em equipe, há que passar por alguns estágios. E o primeiro deles é o conflito. Isso acontece quando os membros do grupo começam a se comprometer com algo maior do que seus interesses pessoais. Daí a coragem de se expressar. E de abrir as caixas pretas. As diferenças de percepções, bem como os sentimentos, até então enrustidos, vêm à tona. É uma situação de mal estar, mas de evolução, em que crenças e valores são colocados em cheque.

A melhor tradução

Por meio das boas práticas de conversação e da busca do consenso, o grupo consegue passar pelo conflito e migrar para o estágio da calmaria. O que era simples troca de informações transforma-se em compartilhamento de intenções. Com isso, os medos, geralmente causadores dos conflitos, de certa forma ficam atenuados. Embora a calmaria seja um estágio superior aos do grupo e do conflito, as pessoas ainda não estão dando o melhor de si.

O quarto estágio é aquele em que o grupo se transforma em equipe, na melhor tradução do que seja uma comunidade de trabalho. Os participantes dominam as melhores práticas de conversação, lidando bem tanto com o lado racional como com o emocional. Equipe não significa ausência de conflitos. O comprometimento cada vez maior e consciente faz com que todos se sintam mais responsáveis pelas decisões.  Surgem divergências, sim, e podem ser muitas, mas sempre no campo das opiniões e ideias, enriquecendo as decisões. No bom conflito não existe espaço para a hostilidade.

De grupo à equipe, de país à nação.

De maneira análoga, o que está acontecendo hoje em nosso Brasil segue a mesma linha. As manifestações nas praças públicas das grandes cidades são impulsos para que o país se transforme em nação, da mesma maneira que grupos se constituem como equipes, nas empresas que pretendem ser progressistas.

O processo de evolução segue os mesmos estágios. O primeiro deles é o conflito, justamente o que estamos vivenciando. É claro que, para um país que engatinha nas práticas democráticas, abrir a caixa preta é soltar nas ruas também cobras e lagartos, fora o mau cheiro de coisas apodrecidas há tempos: corrupções, descasos, desvalorizações, desgostos, violências. Para nos transformar em nação, teremos que lidar com o bom e o mau conflito, na esperança de que o primeiro prevaleça sobre o segundo.

A fase inicial do conflito é a expressão de um sentimento! É a oportunidade e a satisfação de ter voz ativa expressa em um cartaz. Na verdade, um clamor: “eu existo!”. Se o primeiro clamor é pela expressão de sentimentos, o seguinte é pela busca de significado, por meio da busca de consenso nas questões essenciais que formam uma sociedade.

Do grupo à equipe, a prática do consenso. Do país à nação, a boa prática da democracia. Quem sabe agora consigamos acordar de vez o gigante adormecido em berço esplêndido. Muitos, individualizados, já estavam acordados – mas solitários. Despertos, conseguiremos feitos jamais imaginados. Revelaremos um país com vocação para ser nação. E  empresas, com vocação para serem comunidades.

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