Muito além de um telhado

Artigo publicado na Revista Empreendedor
Junho/2015

Sempre achei intrigantes aquelas fotos aéreas de telhados de fábricas. Penso que o leitor sabe ao que estou me referindo. São os galpões vistos de cima, em toda a sua extensão, imagens geralmente utilizadas em sites, folders e painéis pendurados na recepção das empresas.

Para que ou a quem servem?

Uma resposta mais ingênua poderia usar o argumento de que é bom que os clientes, funcionários, fornecedores, investidores e financiadores saibam com quem estão lidando, ou seja, com uma organização sólida, capaz de honrar os seus compromissos. Sem dúvida, pois basta olhar para as dimensões do seu telhado para deduzir o tamanho do patrimônio.

Outra resposta a cogitar é a de que manifesta muita consideração por seu ambiente de trabalho, ao sugerir  que centenas de pessoas se movimentam dentro daquele caixote, abrigadas do sol, do frio e da chuva, para que possam realizar um bom trabalho.

Já uma hipótese menos ingênua é a que assim dá mostras de poder, considerando que pelo tamanho do telhado é possível imaginar o poder de fogo da empresa e a força do seu capital.

O que mais poderia ser? Viajo na inteligência para buscar uma resposta minimamente racional, mas tudo o que me vem são explicações irracionais. A começar pelo trabalho de obter a fotografia a partir de uma perspectiva elevada, o que só se consegue com o uso de um helicóptero ou avião, algo que, provavelmente, representa um custo de bom tamanho.  

Penso em primeiras e segundas intenções. As primeiras estão relacionadas a oferecer uma apresentação da empresa, a começar pelo telhado. As segundas, ao que um telhado pode expressar. Na era industrial, a do átomo, um telhado representaria poderio econômico. Mas, e agora, no mundo do volátil, do efêmero, do transitório, o que ou a quem pode significar um telhado?

O mundo do intangível

Com uma redução, ao mínimo de seu patrimônio físico, certamente o leitor já ouviu falar de empresas modernas cujas inteligências cabem em uma única sala e são a sua principal riqueza.

Essas inteligências poderiam trabalhar juntas e ao mesmo tempo, sob um mesmo teto (não confunda com telhado) ou em locais e horários diferentes. Não vem ao caso! O que importa é que essas inteligências, que funcionam melhor fora do caixote, são capazes de sonhar, imaginar, criar, inovar. E com uma elevadíssima taxa de retorno, pois o capital investido nas coisas é reduzido ao máximo.

O intangível passa a valer mais do que o tangível quando os negócios começam a ganhar alma. Enxergar a alma de um negócio e compreender a sua importância ainda é um desafio difícil para quem aposta todas as fichas no tangível, incluindo o telhado da fábrica.

Mas quem enxerga e aposta no intangível começa a compreender os futuros negócios promissores da era pós-industrial. Só é capaz de ver isso quem consegue ir além do físico, experimentado também o que existe de metafisico no mundo dos negócios.

O mundo do comportamento

Centenas de pessoas podem estar de lá para cá dentro daquele caixote primoroso, bem projetado, bem arquitetado, bem construído, bem pintado e com um belo telhado. Todas elas são valiosas, sem dúvida, exceto as que têm comportamentos inadequados. Ou seja, todo o arcabouço de concreto pode exercer algum fascínio para quem o vê de fora, mas nada encanta mais do que bons comportamentos.

Existem comportamentos empreendedores por parte dos que lá trabalham? Decidem com elevado grau de consciência, pensando nos clientes e nos resultados? Trabalham com afinco, obstinados na busca por excelência? Lidam bem com os conflitos e buscam o respeito nas relações?

Ou será que o investimento no telhado da fábrica foi superior àquele destinado ao aprendizado das pessoas? Será que os gastos com as coisas são superiores aos investidos gastos com as pessoas, sejam elas funcionários ou clientes?

O mundo da consciência

Busque o fio condutor da história e, durante grande parte dela, verá a força como o principal poder. Até o feudalismo, quem detinha a força, por meio do seu exército de vassalos, era o nobre de sangue azul. Assim, ele invadia propriedades alheias, saqueava e dominava. E com isso ampliava seu patrimônio territorial, pois a terra era sinônimo de riqueza.

Quando a era industrial surgiu, o poder deixou de ser a força e passou a ser o capital. Um poder superior, sem dúvida, pois a força se esvai com o tempo, enquanto o capital pode ser acumulado e aumentado ao longo do tempo, além de comprar a própria força.

Na era pós-industrial, o capital começou a se enfraquecer, em favor do conhecimento. Este sim, um poder muito superior, porque enquanto o capital se dispersa quando dividido em muitas mãos, ao mesmo tempo, o conhecimento pode se expandir estando em várias mentes ao mesmo tempo, independente de lugar. Um poder incomensurável e sem fronteiras, tampouco necessita de um telhado que o abrigue.

Mas a evolução dos negócios e da humanidade não para por aí. Uma nova era se avizinha, a da consciência. É a mais poderosa de todas, pois inclui não apenas os conhecimentos que ora podem ser compartilhados, mas uma consciência na maneira de ver e de fazer, sustentada por valores e virtudes.

Sem baixar o teto

É claro que usei o telhado como exemplo flagrante de como as intenções podem desviar as atenções de onde elas verdadeiramente deveriam estar. Algumas empresas podem investir seu tempo e dinheiro nas questões físicas e tangíveis, deixando escapar o que existe de precioso no mundo do intangível, no mundo do comportamento e no mundo da consciência.

Nos negócios, assim como na vida de modo geral, vale mais o que “não se pega” do que “o que se pega”. Vale pensar a respeito!