Marchinhas eternas, verdades incômodas

É uma pena que já não surjam novas composições do gênero, mas as antigas marchinhas de carnaval prestavam grandes serviços ao trazer verdades incômodas à tona, mesmo nos tempos de ferrenhas ditaduras.

Algumas tratavam de profissões, realçando injustiças. Os compositores Peter Pan e Afonso Teixeira fizeram esta: ai que vida triste e tão cruel/tem o homem que apanha papel/sua profissão é um buraco/só pode ir para casa depois de encher o saco.

O trabalho árduo e mal remunerado sempre rendeu boas críticas musicadas. A próxima é de Haroldo Barbosa e Antonio Almeida, uma dupla que fez grande sucesso, em sua época. Barnabé é funcionário/quadro extranumerário/ganha só o necessário/ pro cigarro e pro café/quando acaba o seu dinheiro/sempre apela pro bicheiro/cerca o grupo dos carneiros/a tarde dá o jacaré/O dinheiro adiantado/todo mês é descontado/está sempre pendurado/não sai desse pereré/Todo mundo fala fala/no salário do operário/ninguém lembra o solitário/funcionário Barnabé. E aí vem o refrão: ai, ai Barnabé/funcionário letra E/Todo mundo anda de bonde/só você é que anda a pé.

Entre as mais conhecidas sobre o tema está a de Roberto Martins e Wilson Batista, denunciando a desigualdade que atravessa séculos: Você conhece o pedreiro Waldemar? /Não conhece? Mas eu vou lhe apresentar/De madrugada toma o trem da Circular/Faz tanta casa e não tem casa pra morar/Leva marmita embrulhada no jornal/Se tem almoço, nem sempre tem jantar/O Waldemar que é mestre no oficio/Constrói um edifício/E depois não pode entrar.

 

As marchinhas de carnaval se prestavam a toda sorte de denúncia, inclusive do abuso no emprego, por parte do funcionário público. Algumas, mesmo décadas depois, continuam atuais. É o caso de uma bem conhecida, ainda hoje, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti: Maria Candelária / É alta funcionária/Saltou de paraquedas / Caiu na letra “O”, oh, oh, oh, oh/Começa ao meio-dia / Coitada da Maria/Trabalha, trabalha, trabalha de fazer dó oh, oh, oh, oh/À uma vai ao dentista / Às duas vai ao café / Às três vai à modista/Às quatro assina o ponto e dá no pé / Que grande vigarista que ela é.

E o que dizer da composição, que parece tão moderna, de Hervê Cordovil? Começa assim: todo mundo rouba rouba/eu também quero roubar. Ainda bem que termina assim: quem rouba o teu coração, meu bem/tem cem anos de perdão.

Qualquer relação com o que vemos acontecer hoje em dia não é mera coincidência. E assim seguimos. É Carnaval!

 

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