História pede reverência

Depois de uma interessante trajetória, o que ainda falta é a reverência. Aqui está uma palavra pouco lembrada, cujo significado remete exatamente para a lembrança, revestida de respeito, à própria história.

Toda empresa tem uma história para contar. Composta de dramas e tramas. E é justamente na gangorra do aqui e do acolá que está o tempero da história. Dramas e tramas acontecem por fios invisíveis que se entrelaçam formando um urdume. Brincando com as palavras, uma história feita de urdumes e ardumes e, por isso mesmo, merecedora de total reverência.

É curioso repassar a história de uma empresa. Ela não foi construída exclusivamente de tijolos de tranquilidade, paz, harmonia, equilíbrio e serenidade. Ao contrário. Foi escrita e rebocada com frustrações, decepções e traições. Embora se apostasse na linearidade, foi tecida por fios enviesados, mais irregulares do que regulares, mais confusos do que profusos. Embora se apostasse na ciência, tudo se moveu mais pela emoção do que pela razão. Embora se apostasse nas marés cheias, houve muitas e muitas rasas.

Por essas e outras, reverência se impõe, com a sutileza que os movimentos da vida sugerem. Quando reverenciamos a história de uma empresa, é como se pudéssemos enxergar esses fios invisíveis que tecem toda a trama, para enxergar claramente o que muitos não conseguem ver. E o “assim aconteceu” ou “naquele tempo” não é algo temporal que já passou, mas um “aqui e agora” que se mantém vivo.

Reverenciar é isso: manter vivo! E o que se mantém vivo é o desejo, aquele mesmo que lançou faísca sobre uma ideia e fez a chama inicial e ainda tremeluzente transformar-se em labareda. Esse fogo, aceso nas lonjuras do tempo e do espaço, continua incandescendo o aqui e o agora por meio da reverência. O desejo é a lógica dessa história paradoxalmente quase sem lógica, de tão surpreendente.

Quem vive a história pode contá-la de seu jeito, omitindo alguns fatos e enaltecendo outros, pois o roteiro difere, mesmo, de pessoa para pessoa. Há quem realce mais os ardumes, há quem dê maior ênfase aos urdumes. Mas, ao buscar o elo que mantém ambos os relatos vivos e entrelaçados, a própria história traz à tona o desejo, a primeira intenção, a dimensão filosófica da empresa.

É o desejo que revela o quanto vale uma história – o desejo vivo de quem conta. Pois não é tanto o que se conta, mas como se conta. É nesse como que o desejo se aviva. A reverência é um valor superior, porque é capaz de manter a história viva, o desejo explícito aos ouvidos de quem a escuta, e que ganha mais força ainda para quem consegue enxergá-la. A reverência é capaz de invocar o invisível para que a história continue visível e presente. Intensa e inspiradora. Única.

Cada história é um exercício de saudade e de esperança. Saudade e esperança desse desejo que mora dentro de nós, que transcende a tempos e espaços. Deus queira que se mantenha presente na empresa e no trabalho, ambos protagonistas desse projeto maior chamado Vida.

Envie seu comentário

Seu e-mail não será divulgado. Campos obrigatórios*