Feliz numa panela de pressão

A economia é pressionada a crescer. As empresas são pressionadas a aumentar a participação no mercado. Os líderes são pressionados a conquistar mais lucros. Os vendedores são pressionados a alcançar metas elevadas. Os operários são pressionados a elevar a produtividade. Ninguém escapa dessa panela de pressão. Não admira que venha a tentação de pegar atalhos. Em cada um deles abrem-se fendas, da forma de falsas verdades, ausência de ética, flexibilização do caráter. A corrupção é a filha dileta dessa forma de vida.

Dizem que a ocasião faz o ladrão, mas a pressão faz mais o ladrão do que a ocasião. Procure e encontrará, por trás dela, um desvio ético, a ganância. A ânsia de querer mais com menos empenho, de vencer sempre, de conquistar o primeiro lugar e se manter nele a qualquer custo, tudo isso exerce uma pressão sem medida e sem fim.

Carl Jung disse que “a pressa não é coisa do diabo; ela é o diabo”. Da mesma família da pressa, pressão implica afobação, precipitação, compressão, coação. E é igualmente o diabo a que Jung se referia, pois representa justamente o contrário do que traz paz de espírito. Mas é possível viver sem pressão?

Não, não é possível, nessa cultura competitiva feita de vencedores movidos à pressa e à pressão, correndo a esmo, sem rumo e sem direção. Mas podemos administrá-la, sem deixar que ela nos roube o estado de espirito necessário para manter a vida e o caráter no prumo. E não morder a isca dos atalhos e corruptelas.

Diante de algo que ameaça a nossa estrutura, como uma das estratégias devemos nos orientar por um código de ética. É o que fazemos no processo metanoico e denominamos de “carta de valores”. Algo que nos serve como bússola moral para navegar por um ambiente que tanto nos impulsiona no sentido inverso. Molière, o mestre da comédia, dizia que “os homens são parecidos nas suas promessas. Eles só diferem em seus atos”. Algo mais para ser vivido, do que apenas escrito.

A outra estratégia é substituir destino por desígnio. Explico: destino é dado, é o que vai acontecer se nada fizermos, está posto e posto está. Há quem cantarole hedonisticamente “deixe a vida me levar”, ou seja, permita que o destino determine os meus dias.

Desígnio, no entanto, é dar à vida sentido e direção. É revesti-la de propósito e significado. Não espere que vai acontecer do jeito que se imaginou, isso seria apostar na previsibilidade e na regularidade, o que tiraria toda a graça da aventura. E isso nem é o mais importante. Se a vida estiver no rumo certo, ela se abrirá como um girassol diante do Sol, em sua perfeita conexão. E poderá ir além do que havia sido imaginado, pois o astro-rei faz a sua parte quando o girassol faz a dele.

Destino é aquilo que a pressa e a pressão podem fazer da vida; desígnio é o que acontece quando a paz de espírito governa a intenção e a ação, apaziguando o diabo inerente à dupla responsável pela coação.

Com desígnio e valores, mesmo dentro de uma panela de pressão, é possível viver e ser feliz.

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