Entre o bem e o mal

O nazismo, hoje tido como um mal, foi considerado um bem pela maioria dos alemães, no período de 1933 à 1945. O mesmo vale para o fascismo, que dominou a Itália durante parte do século XX. Semelhante conclusão pode ser aplicada aos megalômanos da história – reis, imperadores, príncipes – opressores em suas épocas e, agora, consagrados como empreendedores vitoriosos, tamanho é o interesse que despertam seus palácios e castelos a turistas maravilhados e dispostos a capturar todo o luxo ancestral nas lentes de suas máquinas fotográficas.

Visitei o tenebroso campo de concentração da Auschwitz, o inferno na terra durante a Segunda Guerra Mundial, onde aconteceram as atrocidades do holocausto. No filme sobre Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judaica, está registrado o que a fez ser perseguida por seus próprios semelhantes: constatar, corajosamente, que na época o mal não parecia perverso e diabólico. Era apenas ordinário e banal.

Hannah Arendt, depois de fugir de um campo de concentração e refugiar-se na América, foi convidada a acompanhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann. Entre as informações que havia sobre ele era de tratar-se de um bom pai de família e de afável convivência. Aquele homem aparentemente calmo e comum, até mesmo bom, no entanto foi responsável pela morte de centenas de milhares de seres humanos, sacrificados em um processo industrial de alta eficácia e produtividade.

A mesma eficiência germânica foi e ainda é capaz de produzir medicamentos na Bayer, substâncias químicas na Basf, tecnologia na Siemens, carros na Volkswagen e roupas na Hugo Boss, apenas para citar algumas empresas que apoiaram e lucraram com o nazismo.

O bem e o mal têm, em sua origem, a mesma energia e força. Apoiados por métodos, técnicas e conhecimentos podem ir longe demais, oscilando de uma indústria de alta competência, como a BMW a uma indústria da morte, como Auschwitz.

Não por acaso, a sabedoria budista lembra: “bebida pela vaca, a água se transforma em leite; bebida pela cobra, a água se transforma em veneno. A água é a mesma”.

O que pode fazer a diferença é algo que nasce na qualidade do desejo, se transforma nas melhores intenções e culmina em um propósito.

A educação como propósito.

O maior desafio em nosso tumultuado Brasil, nos dias de hoje é a educação. Mas não apenas aquela que ensine a contar, ler e escrever. Nem mesmo a técnica ou meramente profissionalizante. O que vai nos salvar é uma educação ética, um aprendizado que precede qualquer outro, incluindo o alto interesse em falar uma outra língua.

A educação, que transforma a água em leite, não em veneno, é o que irá nos salvar!

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