Encare o instigante dilema

Apoio, sim, uma empresa ética, humana e próspera. Mostro como é possível e trabalho há anos para isso, por meio dos programas de educação da Metanoia. Quem lê ou ouve pode extrair desse propósito uma percepção mais romântica do que a realidade permite. Pois saiba: a empresa ética, mais humana e próspera não é nem um pouco confortável. Nem pense em um ambiente sem pressão e sem conflito, imaginando ter encontrado o próprio shangrilá. Uma empresa consegue ser ética, humana e próspera porque enfrenta e aprende a lidar com as tensões que a conduzem até esse propósito.

As tensões se revelam em empresas que buscam tal status, principalmente porque tratam de questões polêmicas, que envolvem verdade, integridade, autoridade, liberdade. Geralmente, são temas velados nas empresas convencionais e nem sempre muito bem resolvidos também no interior de cada um de seus integrantes.

Tomemos como exemplo uma daquelas questões controversas e que batem às portas dos líderes com muita frequência: o impasse entre a autoridade e a autonomia. Quando delegar e quando decidir? Quando exercer a autoridade e quando flexibilizá-la? Quando dar poder para os outros e quando fazer uso do poder que a posição exige? Quando quebrar as regras ou quando reforçar os limites? Quando ouvir e quando falar? Quando ceder e quando se conter?

Líderes me perguntam com muita frequência o que fazer diante desses dilemas. Dizer a eles que a autonomia é importante para que cada um possa liberar seus potenciais e talentos é redundante. Mas também é bom lembrar que a empresa tem restrições e que tudo deve ser permitido até que seja proibido.  Por outro lado, colaboradores não deveriam se submeter às limitações, assumindo o risco de desafiar as regras. É aconselhável, ainda, recordar que as regras precisam ser revistas diante de novas realidades. Como vê, um vai e vem controverso.

O impasse entre a autonomia e a autoridade faz parte do jogo da liderança. Em uma situação ideal, as pessoas deveriam lutar para conquistar a liberdade: isso é bom e desejável. Também em uma situação ideal, as empresas deveriam exercer os limites para que não vire um vale-tudo. Está armado o conflito. E daí? O que fazer?

Parte do trabalho do líder é exatamente engajar as pessoas na luta contra a tensão entre a autoridade e a autonomia. O problema não está na autoridade, como também a solução não se resume à simples autonomia. É um equívoco colocar as duas, autoridade e autonomia, numa disputa sem fim. Aliás, nem deveria haver disputa.

Como líder, transforme a disputa em desafio, e um novo jogo acontece. E a questão passa a ser outra. Não se trata de burlar a autoridade e os limites por ela impostos, mas de reconhecer quantos e de que natureza são esses limites.   E, juntos, de forma participativa, por consenso, decidir o que fazer para criar um ambiente de trabalho ético, mais humano e próspero. Um propósito coletivo com o qual, apesar das divergências, todos concordam e se conectam. De bom grado e crescente satisfação, pois empresa e consciências se fundem em uma só obra.

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