Descubra de onde vem a culpa!

Paira no ar um sentimento de culpa. Mas de onde vem? Sabemos que se trata de algo bem desagradável. Quem já não sentiu ou sente culpa? Aquele bichinho que, continuamente, corrói nosso íntimo tentando reeditar filmes do passado, reparar diálogos já consumados, reconciliar relações irreversivelmente deterioradas?

Para começo de conversa, vale fazer uma distinção entre os vários tipos de culpa: a existencial, a neurótica e a essencial.

A culpa existencial ocorre quando olhamos ao nosso redor e vemos as mazelas humanas e os padecimentos vividos por nossos iguais. Como ser indiferente diante de tantas diferenças? Como não se sentir, de certa forma, culpado? Seja por fazer parte, mesmo que indiretamente, dessas desditas, seja por não fazer nada para revertê-las.

Ainda que não seja um sentimento bom, a culpa existencial não é de todo ruim. Pode, inclusive, despertar a indignação, capaz de nos levar ao fim da omissão e a uma ação solidária efetiva. Grandes nomes da História sentiram-se culpados diante do sofrimento alheio e, a partir daí, reverteram o curso da própria história: Gandhi, Francisco de Assis, Paulo de Tarso, Betinho, Schindler, entre outros.

A culpa neurótica é de outra natureza e não nos leva a lugar nenhum, diferentemente do que pode acontecer com a culpa existencial que, sim, nos conduz a algum lugar. A culpa neurótica só gera o sentimento negativo provocado pelo bichinho devastador.

Esse tipo de culpa surge quando o desejo que passamos a sentir não é nosso, mas de outra pessoa.  E a nossa expectativa é a de agradar ou não desagradar esse alguém. Como as expectativas costumam ser fantasias nem sempre factíveis, a frustração é certa, bem como o sentimento de culpa. Ali está ele buscando algum tipo de compensação para reparar os danos que só fazem parte do imaginário. Acontece também via religiões, quando colocam um peso sobre pecados inexistentes.

Já a culpa essencial merece um tratamento à parte. Sim, porque tem relação direta com o mal. Se o combinado é fazer o bem, nós nos sentimos culpados todas as vezes que fazemos o mal, porque é uma traição a nossos valores e propósito.

Sabemos que praticar o mal não é compulsório. É algo que escolhemos e decidimos fazer. Poderíamos, portanto, evitar. Daí o sentimento de culpa.

Diante dele, existem duas distorções. A primeira, é projetar sobre os outros a culpa que sente. É comum buscar um bode expiatório para nele descarregar suas culpas. Pode ser a chefia, o governo, o cônjuge, a mídia etc. Essa tentativa de se livrar por transferência só faz amplificar ainda mais o problema, revestindo a culpa de inferências e calúnias.

A segunda distorção, mais grave ainda, é não sentir culpa, quando há razão para isso. Há quem pratique o mal e não se sinta culpado. Ao contrário, repetiria o gesto inúmeras outras vezes. São os psicopatas. Nesse caso, melhor acolher o sentimento de culpa do que sucumbir a tal patologia.

Moral da história: em que pese o sentimento nada agradável, a culpa tem o seu lado positivo. Ela existe quando ficamos em débito conosco, com os nossos valores, com o nosso propósito, com Deus. Queremos ser íntegros, compassivos.  Quando não conseguimos, um mal-estar nos assombra. Algo foi maior do que nós, superou nossos valores e a força de vontade. É preferível o mal-estar do que a projeção da culpa sobre outrem ou a ausência total de sentimentos, como se não passássemos de um galho seco, sem nenhum sinal de vida.

O sentimento de culpa é um companheiro de caminhada. Ajuda-nos a identificar algo que não está correto. Ajuda-nos a seguir em frente. Ajuda-nos a refazer nossa trajetória, quando nos desviamos de uma conduta certa. Ajuda-nos, ainda, a discernir diante do embate entre o instinto e a intuição. Coloca-nos em direção ao que é bom, belo e verdadeiro, para que nos tornemos cada vez mais virtuosos. Assim, enquanto vivemos, forjamos o nosso bom caráter. E esse é o nosso principal trabalho. O que devemos e, sobretudo, queremos honrar. 

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