De lobos e cordeiros

Homo homini lúpus, ou seja, “o homem é o lobo do homem”, disse Hobbes, o que levou muitos de nós a acreditar que o ser humano é mau e destruidor. Uma simples olhada ao redor ou mesmo a mais superficial consulta aos noticiários reforça a conclusão.

Por outro lado, muitas pessoas não praticam a maldade, mesmo que tenham inúmeras oportunidades de fazê-lo.  Ao invés do lobo, optam pelo cordeiro. Mas será que essa é, mesmo, a melhor escolha?

Na minha adolescência, li um conto de Ignácio de Loyola Brandão que me marcou demais, a ponto de ainda estar bem vivo na lembrança, passados tantos anos. Começava com um casal assistindo televisão. De repente, o marido resolveu ir até o quarto das crianças. Ao entrar, empurrando suavemente a porta, ele se deparou com uma cena aterradora: um bicho comia seu filho mais velho, de três anos e meio. Paralisado, ele não sabia se entrava e assustava o animal, ou se recuava e pedia ajuda. Imóvel, pensou se devia ou não acender a luz para identificar que tipo de animal era aquele e, ainda, se perguntou como o monstro tinha conseguido entrar na casa. Enquanto o bicho continuava a devorar a criança, o pai divagava sobre o risco que todos corriam por estar em uma casa tão desguarnecida, exposta até à entrada de um ladrão, que poderia levar a televisão, os eletrodomésticos, os móveis.

Confuso, sem tomar nenhuma iniciativa, procurava identificar o bicho, certo de que poucos acreditariam na existência de um animal tão medonho. Pensou ser uma alucinação, mas não era, pois enquanto pensava, o tenebroso mastigava o bracinho da criança. Pensou em buscar uma faca na cozinha, mas como faria para atacar aquela criatura? Continuava estático, parecia colado ao chão.

Estava preocupado, mas sem nenhuma culpa. Afinal, ele nunca havia se deparado com um monstro daqueles.  Como reagir diante de uma situação nova, jamais vivenciada?

No fundo, ele preferia não estar ali, não ter de tomar alguma atitude, quem sabe melhor fosse ter encontrado a cama vazia, as roupas sujas de sangue.

A mulher o chamou da sala e ele pensou em voltar para lá, terminar de ver o filme e deixar para salvar o filho no dia seguinte. E assim o conto prossegue cru e sórdido, provocando aquela tensão e mal estar de que somente os bons escritores são capazes.

Mas não vou recontar tudo. Quem quiser, pode ler a narrativa completa. Chama-se “O homem que viu o lagarto comer o seu filho”.

É que a estória tem tudo a ver com lobos e cordeiros. O pai do menino estava mais para cordeiro, pois se fosse lobo, talvez enfrentasse o animal. Cordeiros, tão dóceis e domesticáveis, facilmente podem ser persuadidos a abrir mão de sua liberdade e responsabilidade.

Escolher entre ser lobo ou cordeiro é como ter de optar entre o bem e o mal, esse milenar impasse humano. Costumamos avaliar uma atitude como boa ou má, ou seja, a partir do que efetivamente foi feito. Nunca pensamos nela como uma omissão, ou seja, aquilo que deixou de ser feito. Mas omissão é, também, atitude. E própria dos cordeiros.

E então, qual e melhor escolha?

Ser lobo ou cordeiro ou lobo e cordeiro?

A vocação do ser humano é ser humano e isso implica não se limitar a mero objeto das circunstâncias, mas ser o sujeito da sua intenção, disposição e proação para melhorar o mundo (ao menos aquele ao seu redor), através da sua liberdade de escolha.

Quanto mais escolhas erradas insistimos em fazer, mais nos parecemos com lobos ou cordeiros. Quanto mais certas as nossas escolhas, mais humanos nos tornamos. É isso que desenvolve a humanidade dentro de cada um e a Humanidade a partir da contribuição de todos.

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