Da cruz de cada um à luz de todos nós.

Se você consultar o Aurélio ou o Houaiss, vai ver que, além de mudança de modelo mental, metanoia significa penitência e arrependimento. Isso causa estranheza para alguns, mas essa semana ajuda a esclarecer.

 

Estamos no final de quaresma, para iniciar a páscoa. Penitência é uma das palavras importantes durante esse tempo. Geralmente, é sinônimo de tristeza ou sofrimento. “Pagar a penitência”, quem já não ouviu essa frase? Remete a algum tipo de castigo. Mas o seu significado original é outro. Quer dizer “melhorar”, “tornar-se melhor”.

 

Outro significado importante desse tempo de quaresma é o da conversão. Que vai muito além do assumir determinada religião. Converter-se é “mudar o rumo”, “retornar”, arrepender-se do caminho que, embora largo e sedutor, não leva a lugar nenhum e tomar o rumo certo, da vereda estreita e única, destinada à vocação de cada um, o caminho ditado pela voz interior.

 

Quaresma é tempo de penitência e conversão, tempo de tornar-se melhor e de tomar o rumo do Caminho. Perguntas do penitente: para onde estou indo? Para onde esta viela me leva? Estou andando ou não faço nenhum movimento? Esse jeito de seguir adiante me faz melhor? Em quem eu estou me transformando, na medida em que caminho?

 

Outra palavra importante desse tempo de quaresma e de preparativos para a páscoa é o jejum. Para alguns, a abstenção de carne. Para outros, evitar qualquer comida ou bebida – alcoólica, por exemplo. E há quem deixe de lado algo de que goste muito, como doces. De quebra, aproveita para perder os quilinhos extras. Na verdade, jejuar significa vencer algo que nos governa. Um vício, um ímpeto, uma carência. É dar um basta aos automatismos que nos afastam dos verdadeiros desejos. É um retorno à presença, à essência.

 

Perguntas do abstêmio: que hábitos e vícios eu gostaria de eliminar ou minimizar? Que hábitos e virtudes eu gostaria de desenvolver?

 

Abdicar de um hábito ou de um vício e governar uma carência traz sofrimento, uma privação consciente. Mas o sofrimento é o fio que liga a cruz à luz. Ao evitar a cruz, afastamos também a luz. É o sofrimento que nos coloca diante de questões essenciais: o que pretendo esconder de mim e dos outros? O que excluo da vida, o que evito olhar, o que me nego a aceitar? Qual é o meu medo?

 

Finalmente, a festa da Páscoa, marcada pela Ressurreição. Na páscoa cristã, Jesus venceu a morte. Aleluia! Mas o que está morto em cada um de nós? O que ainda insistimos em não enterrar? Que dúvidas, culpas, sentimentos de rejeição e medos deveriam ser sepultados? O que precisa renascer? O que precisa viver?

 

Ressurreição é levantar-se depois da queda. E de novo, quantas vezes forem necessárias. Levante e ande! Isso é ressurreição, aqui e agora.

 

O sacrifício da quaresma e da Semana Santa vale a pena. Sacrificar é tornar sacro, sagrado. Esse é o desafio da quaresma e, agora, do tempo pascal: o de nos tornarmos sagrados, abrindo espaço para o divino, nos entremeios do humano que existe em nós.

 

Páscoa é a festa da vida! Caminhar, livre de pesos mortos, com o Ressuscitado é a verdadeira alegria!

 

Feliz Páscoa a todos!

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