Aprenda a enxergar com a alma.

Enlevo! Bonita palavra, mais belo ainda é o seu significado. Vamos ao Houaiss: enlevo significa êxtase, arroubo, deleite.

Sei que não nos sentimos assim o tempo todo. Sei, também, que no dia a dia temos muitas razões para vivenciar o contrário disso: dissabores, frustrações, decepções. Mais aí é que está o desafio: como enxergar o bonito que existe no feio?

Uma vez ou outra eu me deparo com algumas obras de Escher. Uma delas me enlevou: a poderosa imagem de barro, de lama amassada com marcas de pneus e solas de sapatos, e, no meio, uma poça d’água refletindo a copa de uma árvore, o céu, a lua cheia. Os opostos unidos em uma cena única.  O belo inserido no bizarro.

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Existem olhares polarizados: aqueles que só enxergam o grotesco. O barro, a lama, as marcas dos pneus e das solas dos sapatos. Já fiz o teste mostrando essa obra de Escher. Tem gente que nem vê a copa da árvore, o céu, a lua cheia. De imediato, se fixa no sombrio. São olhos acostumados ao tosco. Aprenderam a captar apenas o medonho.

Existem, ainda, olhares polianas: concentram-se no belo como se só ele existisse de verdade. Distinguem perfeitamente a copa da árvore, o céu e a lua cheia, mas fazem de conta que o resto não existe. É o mundo da fantasia.

Interessante notar que a poça d’água só existe porque o barro lhe concedeu espaço. Assim como a luz só existe porque a escuridão abriu uma nesga para dar lugar ao brilho. Esse mundo dos antônimos e dos antagônicos é que precisa ser mais bem aceito e compreendido. Para que se possa buscar, nele, o belo que nos enleva, ainda que seja por um efêmero instante de contentamento. Um minuto de enlevo nos dá razões para uma vida inteira. Dele, não nos esqueceremos. Talvez não consigamos descrevê-lo, mas vai habitar nossa alma para todo o sempre. É isso que chamamos de eternidade.

Percepção é mais uma projeção do que uma causa. Ou seja: não é o mundo de fora que cria os contornos a partir dos quais enxergamos as imagens. É o mundo de dentro que cria os contornos a partir dos quais produzimos as imagens. Donde podemos concluir que o enlevo, ainda que provocado por algum estímulo externo, é algo que habita em beleza a alma de quem vê e que pode ser denominado de magnânimo. Sim, pois nele vive uma grande (magnus) alma (anima).

Abra suas perspectivas. Para merecer tal qualificação, eduque seus olhos. Você pode ver muito, muito mais!

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