Aprenda a enfrentar a fera com São Francisco

Hoje é o dia de São Francisco de Assis, quando também se comemora o da Ecologia, o das Aves e o dos Animais. São temas que têm tudo em comum.

São Francisco viveu há várias centenas de anos na Itália. Toda roupa que possuía era uma manta marrom com uma corda servindo de cinturão. Nos pés, usava uma sandália de couro. Não cobria a cabeça, exceto sob sol escaldante ou chuva, quando se protegia com o capuz e seguia seu caminho, sem demonstrar desconforto. Não tinha um lar, mas se sentia feliz em qualquer lugar. Para ele, não fazia a menor diferença ter ou não um teto para se abrigar. Em meio à natureza, ficava muito à vontade. Considerava amigos todos os seres vivos, tanto homens como animais irracionais. Mesmo as feras mais selvagens chegavam a ele com delicadeza, tamanha a sua naturalidade para com elas.

 

A história, que segue, conto adaptada de Frances Dadmun.

 

Um dia, ao caminhar, Francisco avistou o vilarejo, no topo de uma colina.

 

–       Lá está Gubbio – disse a amigos que o acompanhavam.  – Tenho bons amigos por lá. Vamos fazer uma visita a eles.

 

O núcleo urbano era protegido por uma alta muralha, tão íngreme que não convidava a escaladas. Para entrar ou sair era preciso ultrapassar o imenso portão, que ficava trancado durante a noite, para evitar ladrões, mas permanecia de dia. Naquela manhã em que Francisco e seus companheiros se aproximavam, estava fechado. Tiveram bater várias vezes até que alguém viesse abri-lo.

 

–       Qual é o problema, bom irmão, por que o mantiveram  o fechado? – perguntou Francisco.

 

–       Para impedir a entrada do grande Lobo! – disse o homem, um singelo camponês – Um animal agressivo e violento é o que ele é. Devora pessoas.  É tão ousado que nós o vimos agora pouco, forçando o portão. É uma bênção que não o tenha devorado nem a seus amigos.

 

–       Ninguém ousa sair? – quis saber Francisco.

 

–       Ninguém – disse o camponês.

 

Naquele momento, a rua já estava cheia de gente que tinha ouvido as batidas na entrada. Diante de tantos olhos esbugalhados, denotando o temor que sentiam, São Francisco ficou com pena das pessoas. 

 

–       Venham, irmãos – ele falou aos companheiros – Vamos sair e encontrar esse Lobo.

 

–       Não, não! – a população gritava, apavorada, o som ecoando pela rua estreita. Quem estava mais próximo de Francisco procurava se agarrar a suas vestes, para impedi-lo de sair.

 

–       Vamos, sim! – ele afirmou, confiante.– Eu não tenho medo do Lobo. Ele será meu amigo.

 

O povo sabia que Francisco falava sério, e abriu os portões, mas os dedos tremiam enquanto as travas eram retiradas.

 

São Francisco e seus companheiros foram direto para as colinas onde o Lobo se escondia, seguidos à distância pelo povo de Gubbio. Francisco era destemido. Depositava toda a confiança em Deus. Tomou a dianteira, afastando-se até de seus companheiros. Até que se deparou com o Lobo, que corria velozmente em sua direção, com a cabeça baixa e a boca parcialmente aberta. Francisco permaneceu em pé, imóvel.

 

–       Vem cá, Irmão Lobo – convidou. – Em nome de Jesus, não machuque ninguém.

 

O Lobo fechou a boca e parou de correr. Devagar, arrastando-se pelo terreno, aproximou-se até se deitar aos pés de Francisco, que lhe disse:

–       Irmão Lobo, tens causado grandes danos por estas bandas, matando criaturas de Deus – não apenas outros animais, mas gente, que Deus fez à Sua imagem! Todos clamam contra ti e te odeiam nessas terras. No entanto, eu, Irmão Lobo, desejo estabelecer a paz entre tu e o povo. Não cause mais danos e eles te perdoarão, assim, as pessoas e os bichos deixarão de te atormentar.

 

O Lobo agitou a cauda e a cabeça, inclinando-se tristonhamente. Sabia o que significava ser atormentado. Da mesma forma que os demais, ele também enfrentara dificuldades.

 

–       Irmão Lobo – continuou Francisco, enquanto olhava os flancos tão emagrecidos da fera que se podia ver todos os ossos de suas costelas -, se estás disposto a ser pacífico, eu prometo que serás alimentado enquanto viveres, pois sei muito bem que causastes todos esses danos porque sentias muita fome. Mas já que faço isso por ti, Irmão Lobo, tens de prometer que jamais machucarás nenhum animal ou ser humano.

 

O Lobo baixou a cabeça, mas Francisco queria mais.

 

–       Irmão Lobo, é preciso que faças um juramento para que eu confie em ti com certeza.

 

Francisco estendeu a mão direita. O povo soltou, em uníssino, um sonoro grito de admiração, pois o Lobo ergueu a pata direita e humildemente colocou-a sobre a mão de Francisco, dando-lhe toda a garantia possível a um animal selvagem. Em seguida, foi com ele até a praça do mercado, no vilarejo.

 

–       Ouçam, irmãos. O Irmão Lobo, aqui diante de todos, prometeu ficar em paz convosco e não vos atormentar outra vez de nenhum modo. Cabe a vós, agora, a promessa de oferecer-lhe tudo tudo o que ele precise para comer.

 

De imediato todos concordaram em alimentar, regularmente, o novo amigo.

O Lobo viveu dois anos em Gubbio e perambulou pelas casas de porta em porta, sem jamais ferir ninguém. Polidamente lhe ofereciam comida e nem mesmo os cães latiam para ele. Dois anos depois, o Irmão Lobo morreu de velhice e todos lamentaram. Foi amado não apenas por ser quem era, mas também por lembrar às pessoas o querido amigo, São Francisco.

 

Reflexão:

 

Quem é o lobo que amedronta você? O que faz com que se mantenha em recolhimento, com as portas e janelas fechadas?

 

O lobo representa o medo: do fracasso, da rejeição, da inadequação, de perder o poder e o controle, de não ter razão,  de errar, de acertar.

 

Pode, portanto, ser a própria crise e seus desdobramentos. São Francisco dizia que “se algo rouba a paz no meu coração é porque ocupou o lugar de Deus”. Mas, assim como ele próprio nos mostrou, a nossa santidade é capaz de enfrentar tudo. Corajosa e confiantemente!

 

arte: Gildásio Jardim (gildasio-35.blogspot.com.br)

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