Abaixo a inocência útil

Heteronomia, a ausência de autonomia, é o nome do mundo em que vive o inocente útil. Como ele abdica de sua autonomia, não pensa por si, mas sim o que todos pensam e, pensando igual, nada acrescenta de diferente.

Heteronomia é, também, sujeitar-se a uma lei exterior ou seguir a vontade dos outros. Por isso, o inocente útil não tem opinião nem vontade própria. Morde fácil a isca dos modismos e embarca em todos, dos livros de colorir aos de gastronomia, das dietas miraculosas aos piercings e tatuagens, das obsessivas atividades físicas às caminhadas pseudomísticas. Para saber se um filme é bom, depende dos críticos profissionais ou amadores. O mesmo vale para concluir se gosta de uma música: consulta a mídia ou segue as seleções de sucessos nas telenovelas.

O inocente útil é, portanto, influenciável. E isso vale para tudo, incluindo moda e comida (sim, precisa buscar referências em paladares alheios). Sem critérios, depende de alguém que lhe diga até mesmo o que é beleza. Os marqueteiros, treinados na arte de seduzir, têm nos inocentes úteis suas presas fáceis para criar necessidades quanto a seus produtos inúteis, o que inclui políticos e suas dispendiosas e falsas campanhas eleitorais.

O inocente útil acredita em tudo o que a mídia diz, mesmo que depois, por conveniência, a mesma fonte se desdiga, fazendo com que seu alvo mude de posição ao sabor dos ventos, como as birutas dos aeródromos. Por isso, é fácil massa de manobra. Ouve o galo cantar, mal sabe aonde. Toma emprestados pensamentos e sentimentos e os reproduz sem nenhum critério pela internet, esquecendo de, antes, checar a sua veracidade ou mesmo de dar crédito ao verdadeiro autor.

O inocente útil se serve de migalhas da casca de informações fragmentadas, sem aprofundar-se na busca de conhecimento consistente. Assim como a maria da expressão popular, vai sempre com as outras, dos castelos de areia às mágicas dos ídolos. Enquanto nada com a maré, perde a oportunidade de fazer de sua vida um projeto único e irrepetível, para tristeza dos seus dons e talentos provavelmente fadados a jamais serem descobertos.

Dois fatores mantêm o inocente útil como parte da manada: o desejo constante de contar com a aprovação alheia e a mania de perpetuar determinada aparência.

A aparência, aliás, é uma casca que esconde a real identidade, mas o inocente útil não conhece a sua real identidade, pois também consigo vive uma relação superficial, ou, tendo consciência dela, acredita que será reprovada, caso venha à tona. A dúvida a seu próprio respeito e o medo da rejeição fazem com que prefira manter uma falsa imagem, mesmo que seja pior do que a verdadeira.

Para livrar-se desse sonambulismo autômato, é preciso perder tanto a inocência como a utilidade. Tal desafio inclui um mergulho de humanidade na aprendizagem e no conhecimento da vida. Mesmo que implique o risco de nadar contra a maré. Valerá a pena!

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