A vida é mais do que aquilo que se vê

Isso é fato. Mas fato, ainda, é aquilo que se vê. Então, a vida vai muito além dos fatos. Se ficasse restrita apenas aos fatos, seria vivida superficialmente. Basta observar para concluir que superficialidade parece ser o jeito de viver de boa parte da nossa espécie.

Entenda por superficialidade, a vida vivida na ponta do iceberg, onde se considera apenas o visível e o tangível. É o mundo dos fatos e dados, dos comportamentos e ações. Limitado e enganoso.

Tomemos como exemplo os relacionamentos. Sabemos quanto as relações são importantes para nós, que somos seres gregários, mas sabemos também quanto elas são complexas, principalmente se as vivermos somente no nível superficial, aquele bem visível. Quantos conflitos explodem, quando elas se restringem a esse espaço exíguo. E dizer que boa parte da nossa felicidade depende diretamente da qualidade das nossas relações!

A questão é que, quando muito, essa ponta de iceberg mostra o que é visível, ou seja, os comportamentos. O certo é que, por conta desse fato, elaboramos fantasiosas versões bem distantes do próprio fato. E não se trata de jogo de palavras.

Fato ou comportamento é aquilo que eu posso observar, tudo o mais não passa de mera invenção.  Mas aí está o perigo da história: agimos e reagimos às versões dos fatos, não aos fatos. E as versões dos fatos residem no campo do fantasioso, do não visível, do que é impossível observar.  

Acredite: discórdias, conflitos, separações, brigas e guerras aconteceram e se desenvolvem mais por conta da versão dos fatos, daquilo que não se pode ver, do que pelo fato em si, aquilo que se pode ver.

Acredite, também: a solução para discórdias, conflitos, separações, brigas e guerras está na parte inferior do iceberg, que não se pode ver e que só se consegue acessar por meio do diálogo. Se este assumisse o lugar das neuras das múltiplas versões fantasiosas dos fatos, as intenções seriam colocadas à vista.

Concluiríamos, então, com boa dose de alívio, que muito do que gerou o fato (o gesto, a palavra dita, a testa franzida) não tinha a intenção de gerar as discórdias, conflitos, separações, brigas e guerras. No entanto, os impasses só fazem aumentar de tamanho, enquanto as intenções não forem chamadas à superfície.

A vida é mais do aquilo que se vê e perde-se muito quando a vivemos apenas na superfície. Tenhamos então, a coragem de mergulhar, de conversar abertamente! Para nosso próprio bem.

 

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