A relevante missão dos bufões

Conta a lenda que o imperador Marco Aurélio, quando caminhava pela Roma antiga, mantinha a seu lado um escravo para lhe dizer ao pé do ouvido “és apenas um mortal”, lembrando-o que, embora detivesse o poder, ele não estava com a bola toda.

Também reis e rainhas, no tempo da monarquia, tinham o seu bobo da corte, aquele bufão que adquiria o direito de satirizar os nobres e seus abusos de poder. Era uma figura cômica e desagradável, mas a única pessoa com o direito de dizer o que a população pensava sem correr risco de vida.

O bobo da corte declamava poesia, dançava, tocava algum instrumento e fazia anedotas. Sabia zombar do poder com inteligência, atrevimento e sagacidade. Com sua ironia, deixava os poderosos nus, revelando cambalachos ou mentiras para enganar o povo. Essa figura comum das cortes europeias deixou de existir depois do século XVII por questões óbvias.

Embora o regime vigente em muitos países não seja mais a monarquia, os abusos de poder continuam. E é ainda por meio da arte que os bufões se expressam, seja na música, no teatro, na poesia e na literatura. Assim, para nossa sorte, os reis ainda continuam nus.

Nas empresas, boa parte delas pequenas ditaduras, o uso e o abuso de poder também existem. Quão sábio seria o seu líder principal se consigo trouxesse um colaborador com direito a lhe sussurrar aos ouvidos, de quando em quando, “és apenas um mortal”.

Sim, são poucos os líderes que se sentem mortais. A maioria considera-se imortal, sem nenhuma preocupação em preparar sucessores. E continua dirigindo a empresa com mão de ferro, concentrando poder, centralizando decisões, no afã de controlar tudo e todos.

Esquece ou nem sequer percebe que, tal como no passado histórico, os bufões estão por aí. De maneira mais ou menos velada, eles emitem suas opiniões com doses ácidas de ironia. Nas empresas, são as rádio-peões. É claro que não gozam da simpatia dos líderes, assim como os bobos da corte não eram estimados pelos reis. Os líderes sábios, no entanto, deveriam fazer como os reis capazes de manter e suportar os bobos da corte. Deixar, portanto, que tragam à tona tudo o que está submerso. Ainda que possa exalar mau cheiro, é melhor lidar com a verdade à luz do dia do que deixar que impregne os ares na calada da noite.

Se o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente, tanto nos governos como nas empresas, então um viva aos bufões e bobos da corte de ontem e de hoje! Sua missão é relevante.

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