A mais sublime herança

“Em nossas grandes cidades a população não tem deus, está materializada – sem vínculo, sem companheirismo, sem entusiasmo. Não são homens, mas fomes, sedes, febres e apetites ambulantes. Como tais pessoas conseguem seguir vivendo – completamente desprovidas de objetivos? Depois que seus ganhos de milho de pipoca foram feitos, parece que apenas o cálcio em seus ossos as mantêm de pé, e não algum propósito valioso. Nenhuma fé no universo intelectual e moral. Fé, isto sim, na química, na carne e no vinho, na riqueza, na maquinaria, na máquina a vapor; fé em baterias galvanizadas, turbinas rotativas, máquinas de costura; fé na opinião pública, mas não em causas divinas. Uma revolução silenciosa afrouxou a tensão de antigas seitas religiosas e, no lugar da gravidade e permanência daquelas sociedades de crenças, as pessoas se entregam ao capricho e extravagância. A arquitetura, a música, a reza partilham da insanidade: as artes afundam nos truques e convites ao devaneio. Haveria maior prova de ceticismo do que a baixa estima com quem são contemplados os mais elevados dons mentais e morais?”

Essas reflexões são do livro Trópicos Utópicos, de Eduardo Giannetti, economista e filósofo. O livro foi um presente que recebi de um querido amigo metanoico. O curioso – pasme! – é que se trata de um texto do filósofo Emerson, escrito em 1860, quando o “espetáculo de bits e fúria, fast-food e narcose, smartphones e insânia mal se fizeram anunciar”, ressalva o autor. No entanto, parece um retrato fiel de nossa sociedade atual, da miséria humana e do padecimento provocados pela ausência de propósito.

Precisamos compreender que o mundo é uma obra inacabada. Assim como todo o trabalho que deixamos ao final do expediente. Talvez concluído, mas sempre inacabado. O tempo se encarrega de desfazê-lo. Então, esse é o verdadeiro trabalho, o de retomar e refazer aquilo que o tempo desfez, quantas vezes forem necessárias.

Assim como todas as obras, também somos seres inacabados. É por conta de nossa convicção e perseverança que nos elaboramos, que buscamos o nosso acabamento, pois sempre existe uma rebarba aqui e outra ali a necessitar reparo minucioso ou mais uma demão de tinta.

É nessa elaboração contínua que nos tornamos seres humanos melhores, capazes de gerar outros seres humanos mais aprimorados. Essa é a única estratégia confiável para construir um mundo melhor e mais harmônico, com o esmero que merecem todos aqueles que nele habitarão.

Essa será a nossa mais sublime herança.

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