A maior responsabilidade do líder

Fui professor do MBA na FIA/USP, há alguns anos.  Lembro-me das aulas que ministrei na Petrobrás, por teleconferência a partir de um estúdio situado na Rua dos Ingleses, na Bela Vista, em São Paulo. Embora à distância, eram interativas e eu lançava perguntas para os participantes, funcionários locados nas várias plataformas de petróleo espalhadas pelo Brasil.

Era divertido conversar, naquela mistura deliciosa de sotaques, com os engenheiros em Canoas, no Rio Grande do Sul, em Campos, no Rio de Janeiro, bem como no Espírito Santo e em Alagoas. Era divertido e ao mesmo tempo recompensador interagir com profissionais tão sérios, empenhados, dedicados, inteligentes.

Mas por que esse saudosismo? Porque me sinto indignado ao ver a reputação dessa empresa emblemática sendo jogada por terra no escândalo que envolve alguns de seus líderes. Será que funcionários competentes e de longa carreira merecem tamanha inglória?

Destaco a Petrobrás por ter vivido essa feliz experiência como professor, mas imagino que deve acontecer o mesmo com as pessoas que trabalham na Odebrecht, na Camargo Corrêa, na Andrade Gutierrez, para citar somente algumas das que têm sido citadas nas investigações e processos em curso. Sem dúvida, tais organizações têm em seus quadros pessoas honestas e dedicadas. Como será que elas se sentem ao verem seus presidentes e diretores encarcerados? Desconfio que boa parte desses profissionais apoia as manifestações de protesto contra práticas escusas, realizadas em vários pontos do Brasil, como as que se viu na avenida Paulista, em São Paulo. Como será que elas se sentem sabendo que seu caráter honesto não conversa com tais ilícitos?  

Um líder jamais deveria esquecer que uma empresa não pode ser um objeto de transações, mas sim um sujeito de relações. Um sujeito cidadão, um membro da comunidade.

A linha mestra da abordagem aristotélica define bem viver como respeitar-se e fazer parte de algo de que se possa orgulhar. Não é o que acontece nessas empresas, agora. Que equipe de trabalho consegue manter a moral elevada diante de denúncias que envolvem reputação e dignidade? Que líder pode servir como autoridade ou referência, quando investigado por corrupção? Como se inspirar nele e segui-lo?

Se considerarmos a empresa como cidadão e comunidade – em vez de vê-la apenas como pessoa jurídica com suas burocracias e obrigações fiscais e legais – então a ética seria uma condição sine qua non. E somente um líder de verdade é capaz de conduzir tal tipo de empresa.

E o que é uma liderança de verdade? Liderança de verdade é aquela que age com base em valores e virtudes, capaz de evocar os valores e virtudes de pessoas ao redor, inspirando-as com confiança e esperança.

Somente um líder capaz de tratar a empresa como sujeito e como cidadão será também capaz de tratar todos os envolvidos – colaboradores, fornecedores, clientes, investidores – como sujeitos e cidadãos. E essa é a sua principal responsabilidade!  

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