A arte de administrar o tempo

É por conta dela que adiamos o treino na academia, as aulas de inglês, a leitura de um bom livro, a visita ao amigo. Falta de tempo! Essa tem sido a desculpa mais comum entre os mortais comuns, com o perdão da redundância. Digo mortais comuns não para desmerecer, mas para destacá-los de uma outra turma de mortais que parece lidar muito bem com essa questão do tempo.

O leitor poderia supor tratar-se de uma habilidade de gestão do tempo, algo como saber classificar os afazeres entre os mais importantes e os mais urgentes. De fato, esse cuidado é uma das características positivas daqueles que lidam bem com o tempo. Mas isso é apenas uma parte, e nem mesmo a mais importante, desse típico dilema.

Para começar, os mortais comuns e os não comuns têm uma relação diferente com o tempo. Os mortais comuns vivem a era do demais: coisas demais, distrações demais, barulhos demais, oportunidades demais. Para os mortais comuns o ano continua tendo doze meses e o dia, 24 horas. Vêem o tempo como um recurso escasso. Caem, facilmente, nas armadilhas da compressão e da exclusão.

Compressão implica agendar mais de um compromisso no mesmo espaço de tempo. Exclusão é deixar de fora acontecimentos importantes, como a festa de aniversário de um velho amigo ou o jantar com a família. Daí a legião de deseducados, que negligenciam compromissos e não se fazem presentes.

Quais são, então, os grandes segredos dos não comuns?

Os não comuns vêem o tempo com generosidade e abundância. São gratos pelo crédito diário de 86.400 pontos – o tanto de segundos a que cada um de nós tem direito. Sabem que não podem transferir nenhum saldo do dia para o seguinte. Não há como voltar o relógio da vida, para recuperar pontos perdidos. Outro segredo dos não comuns está em distinguir o que é o melhor, ou seja, tudo o que está relacionado ao seu propósito.

Aqui vale uma ressalva: é bom não confundir propósitos com lista de coisas para fazer. Ter propósito é diferente disso. É ser bússola, em vez de ser vela. É gozar a viagem, mais do que chegar ao destino. Quem tem propósitos, tem projetos. É diferente daquele sentimento momentâneo de alívio, ao final do dia, ao ver vários itens ticados na lista dos afazeres.

Quem tem propósito sabe que mais importante do que a lista de coisas para fazer é a lista de coisas para não-fazer.

Lá vai o segredo final dos não comuns: paixão. Quando existe propósito e paixão, você não adia. Você vai lá e faz, não é mesmo? E sente-se bem com isso. É quando não existe distinção entre trabalho e divertimento. É ser capaz de trocar o chrónos (palavra grega para designar o tempo que não passa) pelo kairós (palavra grega que significa a perda da noção de tempo, tal é o deleite).

Na verdade, existe muito tempo disponível. O problema é que os mortais comuns estão mortos na maior parte dele. A sabedoria maior daqueles que não tem a falta de tempo como eterna desculpa é que não se deixaram consumir. Antes, descobriram que ganhar a vida é apropriar-se do tempo, a sua mais importante matéria-prima.

Assim entendem e assim fazem. Amém.

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